sábado, 27 de fevereiro de 2010

Cultura Suja - José Saramago e o Ensaio


Uma epidemia de cegueira. É disso que trata o livro “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, maior escritor em língua portuguesa da atualidade. Mas como a cegueira pode ser contagiosa? Através da metáfora Saramago critica a sociedade e a natureza humana, bebendo na fonte do Absurdo e do pessimismo de Franz Kafka.

Segundo as palavras do próprio autor, “São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.” Por meio de uma narrativa filosófica e instigante, o autor nos carrega pra dentro da história, de modo que sentimos a angústia passada pelos personagens.

À medida que avançamos constroem-se em nossas mentes as imagens marcantes da competição, sujeira física e moral, depravação e egoísmo. Imagine se o modelo de sociedade em que você vive for por água abaixo, e de repente só sobrarem você e seus instintos.


Antigas barreiras se desfazem, e poucos valores restam. Como nos mostra o autor, os olhos são uma forma de controle social. Se ninguém mais tem olhos, não haverá quem veja para que os cegos possam sentir. E não haverá quem possa controlar os cegos se ninguém mais vê.

Porém no meio do caos coexiste o altruísmo, não de forma predominante, mas sim determinante. “A responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam” será sempre importante para nos protegermos de nós mesmos. Pois quem se lembra da ética e do pudor quando a impunidade é uma certeza?


Recomendo o livro e o filme, que tem a competente direção de Fernando Meirelles e um elenco hollywoodiano de primeira linha. O filme não consegue reproduzir toda a angústia do livro, por isso ele deve ser visto como um complemento ilustrativo do primeiro. Vale a pena conferir enquanto você ainda tem olhos.

Lilly Zowie

3 comentários:

  1. Excelente dica! Sábia relfexão... metaforicamente o autor analisa o distanciamento do senso comum pela visão! A diáspora entre as trevas e as luzes, entre aqueles que enxergam o tênuo liame que submete a perversidade da natureza humana através das convenções e das normas, manifestada numa conotação maculada pelo aspecto literal da perda dos sentidos. Interessante para pensarmos o quão cegos caminhamos nesta aventura egocêntrica e instintiva chamada "realidade".

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  2. Luiz Bianco Cunha1 de março de 2010 09:14

    pra mim, o melhor texto até hj da coluna! parabéns!

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  3. Gostei, me ajudou a compreender melhor a real intenção do livro.

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