segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Culto e Grosso-A irritante felicidade alheia.



Não costumo ser daquelas pessoas praguejantes, daquelas que dizem que tudo vai dar errado

Também não sou alguém que reclama de tudo, a qualquer momento, em qualquer situação
Mas também não nego a existência dos conflitos. Não nego o meu mau humor, o meu descontentamento com certas coisas, inclusive algumas que não têm solução, por hora
Gosto de rir, amo rir, gargalhar, de doer a barriga e as bochechas, de faltar o ar. Aquele riso que, mais um pouco, vira choro desmedido

Rir é um ato pontual, é catártico, cínico e, em alguma medida, também uma expressão de superação. Um riso carregado de afeto. Pode ser desejo, angústia, pode ser dor. Pode também ser um riso de foda-se. Não o foda-se todo mundo, mas o que diz "eu vou me libertar, eu me libertei. Não quero isso mais pra mim".

Outra coisa, diferente, é o riso alienado de felicidade vazia. Aquele que refere uma felicidade constante, um contentamento com tudo, a ausência de dúvida, de conflito, de angústia.

Esse riso me irrita. Me irrita muito. Não é incomodo, não queria estar no lugar dessa pessoa. Talvez a alienação alheia irrite. Será que eu queria, no fundo, estar no lugar dessa pessoa, alienada também? Ou será que eu me sinto falando com uma parede? É difícil explicar. Não, não é isso, não é uma explicação que falta. É um nome.

Retornando à questão da felicidade, que, no mais das vezes, é um sonho de consumo, um objetivo, uma meta, um dever. Muitas vezes me sinto compelida a mostrar felicidade. Às vezes, consigo me impor na minha dúvida, às vezes não. Aí tem um íncomodo, no sentir-se exigido de ser feliz; exigência essa que parte do mesmo dono do riso vazio...

Não estou atrás de ser feliz, não dessa felicidade. Mas se existe outra, ainda não descobri, porque o que sei é sempre tenho dúvidas, e as dúvidas sempre causam angústia. Eu sempre estou com o outro, então, sempre estou em conflito. Eu sempre sinto, então, estou sucetível à dor.

Se a felicidade compate com essas condições, ainda não sei, mas essas são condições reais humanas. Não há existência sem desgaste e sem marcas. E a felicidade almejada não renega tudo isso? Ou não diz que é maior que tudo isso?
Eu ainda defendo a legitimidade do sofrimentoe da dor, como a experiência que funda a realidade da vida e das coisas

Não o sofrimento cristão, porque esse também aliena tanto quanto a felicidade vazia, e talvez ela seja a compensação dele, e, portanto, andam juntos
Não sei se o que eu quero é ser feliz. Não sei se hoje, ou um dia, esse nome vai significar o que eu sei que sempre procuro, que é o sentido da vida e das coisas, é fazer a vida valer a pena

A felicidade não é uma mentira; ela simplesmente não é uma questão

2 comentários:

  1. Já dizia um amigo meu!, o negócio é o momento! O fundamento do andamento com firmamento, mas o negócio é o momento! A tal felicidade se faz presente em um momento, piscou? Já passou!!! Muito Bom ler Culto e Grosso pela manhã!

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