domingo, 17 de janeiro de 2010

Sujos Factual- Do que virá Parte 1 – A INSÔNIA


"Sono, sono, sono... os olhos pulando pra cima e pra baixo em velocidade, em velocidade. Morpheus está ao meu lado, eu saio vagando por dentro do corpo fluido do anjo da ilusão e vejo/percebo/sinto O andar onírico como uma sinfonia dissonante e expansiva".

Nada do que se fizesse parecia fazer o "garoto" ninar. Sua mente esta demarcada por campos opostos e múltiplos. De um lado seus pensamentos passados, a culpa, a dor, o trauma; do outro, seus pensamentos futuros, a paranóia, o medo, o frio. Entre eles estavam sua própria voz interior, aquela que por alguns segundos conseguia comandar a própria consciência.

Queria mesmo que tudo parasse, que tudo desse um tempo e voltasse a ser como antes. Até mesmo seu corpo respondia ao ataque psíquico, coçava até encontrar o sangue dos músculos ao pensar estar sendo picado a mil por mil pernilongos.

"Coça, coça, esfrega, grunhe, quer levantar, quer dormir, está quente, quer um banho, quero dormir, ahhhhhh"

O vinil já havia estabelecido o fim das próprias rotações. O quarto para o mundo estava em silêncio quase total. Os móveis podiam ainda escutar o mexer dos lençóis e o corpo angustiado e quente se contorcendo, procurando o lado mais tranquilo para deixar a cortina da vigília.

O homem busca a vida incessantemente e o torpor do inconsciente deixa de ser um fardo e se transforma em um perfume oferecido pela natureza para que a tensão mental possa ser distendida e o espírito consiga respirar com mais facilidade.

Um ser que se põe metade matéria bruta, metade vazio é sempre sufocado quando a medida são 16, 20 horas para o corpo e a mente, porém apenas um terço ou um quarto de seu presente para o que realmente importará no final.

“Dormir, dormir, amanhã levanto às 7h30, tenho que estar na UF, 8h40. Já são 3h50, to fodido, to ferrado, vou dormir pouco, minha vida vai ser ruim amanhã. Se tivesse dormido... meia-noite, meia-noite. Vou chegar, dor estômago, cantina, café, cigarro, cigarro, salgado, refri, cigarro... e fala e fala e fala e lê e lê e escreve e fala e conta e lê e pergunta e levanta e senta de novo”

A loucura é vizinha da insônia, o homem quando não consegue deixar a razão adormecer, se torna irracional, seus pensamentos são administrados em doses rápidas e turvas de consciência/inconsciência.

De súbito, a colcha e o lençol arranham o ar, sendo jogados ao lado. Seu corpo semi-vestido, ocupado por uma espécie de short está quente.

"Nego vai acordar, nego vai acordar... "

O banheiro o esperava entreaberto. Deixou a luz entrar o suficiente para ver um pedaço da própria imagem. Estava no escuro, estava bem. Passou o resto do braço e a mão direita pela porta levando sua massa lateral. Segurou a maçaneta, devagarzinho, devagarinho. Clop! Acendeu a luz, viu as manchas, os ruídos, não estava assim tão à vontade. E não era só naquele dia, era também no resto dos dias anteriores e há um bom tempo já.

Em outras ocasiões, testava se havia um quê de liberdade em sua vida. Chegou até a levantar de sua cama e ir em direção à catedral da cidade, no centro, em uma terça-feira pela madrugada, sem qualquer motivo a não ser para provar si mesmo que poderia ir até lá e voltar e não ser punido por causa disso.

“Me cabe escolher ir e vir. As pessoas ficam mandando ser isso, querendo que seja aquilo, impondo, recompondo,montando. Porra, eu sou eu e pronto, nada a mais. Quer dizer, tudo a mais: eu não sou absolutamente nada no cosmo, uma poeira e me sinto um gigante, mas para me realizar, para meu invólucro adquirir vida será necessário estar preparado”

A dor não é nem a menor das realizações quando se torna um flagelado, era somente o que se poderia sentir nesta vida. Isso foi compartilhado na história por vários povos, etnias, gêneros.

Atualmente, em todos os mínimos cantos, ainda há uma sangrenta batalha diária contrária e excludente ao diferente. De tão comum essa potência, ela parece estar em todas as situações da vida. A luta diária, um contra o outro, alimenta um canto da nossa alma. Geralmente, o confronto é invisível e se mistura com o comportamento racional.

Assim é bem melhor, afinal, antigamente, o confronto, a punição, a justiça, eram repercutidas no mais sensível da alma, a grande antena do espírito, o corpo e a sua mente em busca de posição social. A punição física foi intensamente utilizada por eras como forma de dominação dos pais aos filhos, dos mais fortes fisicamente aos mais fracos.

Entretanto, agora, realmente agora, todos os acordos foram feitos e quem souber aproveitá-los, perceberá que cada um de nós será responsável pelo acordo ou desacordo do que virá.

Dormiu na privada!

Jota de Oliveira

Um comentário:

  1. Um dos textos mais emocionamente complexos que tive o prazer de ler na blogosfera recentemente. Aguardo ansioso a Parte 2 esperando mais um chute na alma como recebi ao ler esta descrição quase onírica do tormento humano.

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