
Se você não está acompanhando este conto, as duas primeiras partes dele estão no post anterior. Se está, manda bala na segunda parte!
Agora foi a vez do motorista pensar naquilo tudo. Um longo período de silêncio se seguiu enquanto o homem acelerava o carro por planícies e descampados. Ele parecia processar aquelas palavras. Parecia ser a primeira vez que havia escutado algo tão certo em relação a vida.
Do lado de fora, as nuvens ficavam mais feias. O sol já não brilhava e o tempo estava cada vez mais escuro e pesado. Os primeiros pingos riscaram o vidro da frente do carro. Eram pequenos. Aquilo parecia ser apenas uma amostra do que ainda estava por vir. Depois que a chuva começou a cair mais forte, o homem que dirigia o carro recomeçou a falar:
-você tem uma boa opinião. Veja, há tanta gente nesse mundo que perde tempo com tanta bobagem que eu não entendo... perdem tempo em computadores, trocando palavrinhas, mantendo um tesão reprimido enquanto a vida esta aí... correndo aí fora pelos campos, o cheiro de chuva, essa porra toda que conecta o mundo, saca?
-sei. Eu sei exatamente do que você está falando.
A viagem seguiu. A chuva apertou muito no caminho, mas logo o sol já estava de volta no finzinho da tarde. Neil saltou em uma cidade pequena e caminhou por mais algumas horas. É, a vida era aquilo mesmo.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Contos Sujos - Roadster - Parte 3
Contos Sujos - Roadster - Parte 2

Se você não está acompanhando este conto a primeira parte dele está no post anterior. Se está, manda bala na segunda parte!
Neil encostou na porta do carro e colocou o braço para se apoiar na janela. O motorista era um velho barbudo, com uma aparência angelical. Neil iniciou o diálogo:
-para onde vai, amigo?
O velho parou e o observou por alguns instantes. Estava analisando Neil, provavelmente pensando se não estava fazendo uma grande besteira parando o carro ali. Pareceu aprovar o homem que aguardava a resposta do lado de fora e disse:
-vou descer a estrada até onde puder. Não tenho destino, sou um sem destino... se quiser, entre.
-não sou de negar a ajuda dos outros, principalmente vendo que a coisa aqui vai ficar feia. A chuva que vai cair não é brincadeira. Respeito a estrada. Vamos lá...
Neil destrancou a porta e entrou. Jogou sua mochila surrada no banco de trás do carro. Era um modelo Cadillac, muito bem conservado. O estofado era todo em couro branco e a lateral era em um azul platinado que refletia incrivelmente a cor do sol que ainda brilhava entre as nuvens lá fora. Um cheiro bom, de alguma planta tomava conta do carro. Enquanto o motorista se preparava para dar a partida, Neil tentou começar uma conversa:
-meu nome é Neil, qual é o seu amigo?
-meu nome não importa... – disse com um leve sorriso no rosto – vocês caroneiros se esquecem logo depois que saltam do carro o nome daqueles que lhe oferecem ajuda...
Neil sabia que o homem tinha razão. Uma coisa era um roadster eventual, que nem sempre se aventurava na estrada. Outro era um cara como ele, que vivia rodando por todos os lados, com todo tipo de gente. Não havia como guardar o nome de todos.
-sim, você tem razão. É impossível lembrar do nome todos que me ofereceram carona, comida ou abrigo. Estou na estrada há muito tempo. Mas sou grato, e me lembro de cada experiência e por isso sou grato. Mais do que nomes, lembro do que cada um é.
Continua...
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Conto Sujo - A arma
Mais um trago daquela cachaça ardida, de péssima qualidade, que pra ele já não fazia diferença. Nunca conhecera coisa melhor, em uma vida pobre e dura. Mais um trago. Dentro daquele quarto escuro e úmido, com um prego solitário que já havia acolhido algum quadro igualmente sujo e de mau gosto. Hoje era só um prego pendurado ao léu, sem importância nenhuma pra ninguém.
Aquele homem – ou fora um – nunca havia sido feliz. Com oito irmãos pra sua mãe solteira criar, ele (o terceiro dentre eles) era apenas outro filho em uma fila para comer. Nada de amor, o que importava era ter o que comer no dia seguinte. Não havia tempo para outro tipo de sentimento. “Só quem passa fome pra entendê essa merda”, pensava ele.
Reparou no quarto que ele alugava de uma velha grossa e sovina – lembrava sua mãe – e não conseguia deixar de se sentir parte daquilo. Sujo, velho, inútil. Mais um trago. Há tempos que a cachaça não fazia diferença. Sua tentativa de esconder toda uma vida extremamente amarga e cruel já não era possível só com álcool. “Priciso acabá com essa porra”. Sabia que comprara aquele .38 de um conterrâneo cearense não pra sua segurança, afinal ninguém ia roubar um homem como ele. Já olhava para a arma – também suja e velha, como seu quarto de hotel e sua vida – da forma com que olhava para a cachaça. Seria a solução de seus problemas. Definitiva, rápida e eficiente.
Uma bala, um giro no tambor e um toque do destino. Será? Sua dúvida consumia o pensamento. Não por medo de morrer, já que não valia a pena viver desde que se entendia por gente. Sua preocupação era justamente a roleta-russa roubar-lhe a vez, assim como a vida fez com ele. Teria coragem de acertar a bala e meter o cano daquele ferro frio na boca? Nunca fora decidido, não sabia se seria agora, justamente pra dar cabo de uma vida insegura, infeliz e derrotada.
“Foda-se”. Pegou .38 enferrujado com uma mão, agarrou o aguardente com a outra e sentou-se na cama de costas para o prego. Era seu retrato no quarto. Lembrou de sua mãe, magra, esfomeada e com dois de seus sete irmãos no colo. Ela acenava pra ele, convidando-o a juntar-se a ela. Os olhos marejados não mais conseguiam focar aquela parede descascada. Já estava morto e não sabia. O caminho da arma entre a cama e a boca foi percorrido com naturalidade. Ela estava leve. Esqueceu que a bala não estava na posição correta, e poderia não haver o tiro de misericórdia.
Tarde demais. Já estava a caminho de encontrar sua mãe.
Por Cleo Linhares
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Contos Sujos - Para Baixo - Parte 2
Tony continuou descendo a rua. No caminho parou em uma pequena mercearia e comprou alguns cigarros. Tinha pouco dinheiro no bolso, por isso pegou dois ou três apesar de saber que aquilo não seria o suficiente. Continuou caminhando, enquanto tentava acender um deles, lutando contra um vento que vinha no sentido contrário. Depois de muito esforço, conseguiu dar as primeiras tragadas.
Aquela altura da noite, o movimento ainda era grande no centro, mas as pessoas já buscavam a forma mais rápida de sair daquele lugar. A noite em Big City, e principalmente no centro da cidade, era triste e ao mesmo tempo muito sombria. Não era uma boa ideia ficar vagando por ali sem ter outro lugar para ficar até o dia amanhecer.
Enquanto pensava, já se aproximava da porta do bar. Alguns vagabundos estavam na porta fumando e bebendo vodka. A temperatura lentamente começava a cair. Tony entrou. Parecia bastante animado naquela noite.
O Neville era um bar conhecido, porém em franca decadência. estava ficando cada vez mais violento e mal frequentado. O ambiente se tornara pesadíssimo. Brigas eram comuns e quase diariamente alguém apanhava. Roney, o dono, era um velho, alto e bigodudo e ainda preservava parte dos músculos da sua juventude. Tinha fama de ter uma direita mortal. Ali, era o único que niguém não tinha coragem de encostar a mão.
Tony enconstou no balcão e falou com o velho que ajeitava o bigode enquanto arrumava as bebidas:
-e aí velhote, um white russian pra mim...
-você tem grana?
-não
-e quem vai pagar essa merda?
-eu vou dar um jeito de pagar o quanto antes Roney - Disse Tony olhando para o velho
O velho colocou suas mãos no balcão, apoiando-se e olhando nos olhos do homem do outro lado:
-é a última vez que vou vender algo sabendo que você não tem dinheiro. Se no fim da noite você não aparecer com a grana que me deve, eu quebro a sua cara
Tony considerou a proposta. Logo após, não conseguiu se segurar:
-vai preparar meu drink, velhote!
Roney foi para o bar separar os cubos de gelo, o leite e a vodka. Enquanto isso Tony observava o ambiente.
Continua...
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Contos Sujos - A Proposta - Parte 2

Os dois voltaram para o escritório. Na cabeça de David, a única forma de romper com aquilo era sair do escritório. Ou quem sabe subir na hierarquia, colocando o pavão em uma posição inferior. E claro, ele sabia que aquele infeliz seria incapaz de sugar suas bolas.
Enquanto o gordo caminhava em direção a mesa, burburinhos e risos eram vistos por todo o escritório. David conseguiu entender o que se passava quando abriu o e-mail. Uma foto mostrava "o rabo" de uma pessoa obesa sentada em um ambiente de trabalho. Uma fenda gigantesca, com cabelos fartos nascia de dentro da calça, claramente apertada e desconfortável. Era a bunda do gordo.
Não foi preciso mais que alguns segundos para que uma reação oposta acontecesse. Lá do fundo do escritório, o gordo se levantou e falou:
-filho da puta, pavão filho da puta!
As risadas aumentaram. Todos não conseguiam se controlar. No centro, o pavão se manteve imóvel, como se nada estivesse acontecendo. Continuou digitando, enquanto o gordo se aproximava por trás, em um esforço tremendo para chegar o mais rápido possível ao local onde ele estava. Logo que se aproximou, o homem, ofegante, disparou:
-eu te mato - disse nervoso e suando
-como assim amigo, eu não fiz nada para você - enquanto falava, balança as mãos para um lado e para o outro despretenciosamente
-eu sei que foi você. Eu vou te processar seu merda - falou o gordo nervoso
O pavão se levantou e deu um saltinho. Caminhou leve para frente. Virou-se e voltou como em uma cena de teatro. Apoiou-se em uma cadeira. Cruzou as pernas. fez um movimento rápido quebrando a mão e começou a falar, pausadamente:
-sabe, meu, meu... amiguinho... você não pode me acusar de nada. Ou melhor, eu não fiz nada. Este e-mail nem partiu da minha conta, sabe. Veja bem, eu até posso processar você e ganhar uma grana sabe... um grana, para tipo assim, ficar um tempo em casa, enquanto sua bundinha, ou melhor, sabe, bundão continua aqui, suando e trabalhando nos relatórios... eu se fosse você voltaria a trabalhar, e deixaria isso assim, do jeito que está, sabe... é uma história "cabeluda" - falou o final dando um sorriso malicioso. O pavão sabia que estava certo.
O gordo olhou a tela do computador do pavão. Olhou a conta que havia disparado o e-mail. Era uma conta de e-mail qualquer. Ele estava blefando, mas não havia como provar o contrário. David olhou o homem, voltando derrotado para a mesa, enquanto os outros continuavam com gargalhadas, agora sem qualquer pudor. A única coisa que ele pensou foi: isso tem que acabar.
Continua...
Por @biancocunha
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Contos Sujos - A Proposta - Parte 1

O ambiente do escritório era insuportável. O trabalho consumia cada gota de sangue de David. Ao mesmo tempo o Pavão continuava dando os seus shows rotineiros. Pulinhos e saltinhos, com gritinhos no espetáculo horrível que sugava gata gota de esperma de quem tinha algum poder. Ao redor, todos continuavam rezando pela cartilha da diplomacia, sob a pena de serem jogados na fogueira no menor deslize.
David olhou para o fundo da sala. O gordo suava. Passava o lenço completamente molhado pela testa, tentando secar um pouco do líquido que pingava pela mesa. Parecia que teria um infarto a qualquer momento. Foi necessário apenas um rápido contato visual para que os dois se entendessem. David se levantou e tomou o caminho da cozinha. O gordo veio andando, esbarrando em cada mesa, dando passos apressados na mesma direção. Quando o sujeito chegou, David já tomava um café. Descia amargo, mais amargo em cada dose.
-o pavão vai continuar sugando o nosso sangue enquanto continuarmos sem falar nada. Eu vou quebrar esse filho da mãe... eu preciso só que ele venha para o meu lado, eu preciso só que ele balance esse rabo, filho da mãe.. - o gordo disse tentando achar algo para beber.
-você não vai fazer nada - disse David calmamente
O gordo mudou a expressão do rosto. Sua face ficou tensa. Logo, recomeçou a falar:
-acha que não sou capaz de fuder com esse pavão? Acha mesmo que não posso fuder com ele, com você e com toda essa merda?
David tomou um gole longo de café, e voltou a falar:
-você não vai fuder com ninguém porque você está preso nessa merda toda
O homem parou. Por um momento parecia estar desarmado, desamparado. Sabia que aquilo era verdade.
Continua...
Por @biancocunha
terça-feira, 21 de junho de 2011
Contos Sujos - Diálogo com a Morte - Parte 3

Se você não está acompanhando este conto, leia as primeiras partes logo aqui em baixo. Se está, manda bala na última!
Marcelo refletiu por um momento. Tinha agora um semblante bem mais tranqüilo. Passou a enxergar no Barman uma figura de extrema sabedoria e paz interior. Em seguida, com um leve sorriso, ponderou:
Marcelo: Mas, Sr. Morte, eu estou morto, não se lembra?
Barman: Ah, sim! (risadas) Você está morto.
Os dois caíram em gargalhadas, até que chegou o barco que levaria Marcelo até o Julgamento. Era um pequeno bote com dois remos. Curiosamente, ele chegou vazio.
Barman: Vamos lá, Marcelo. Vou te conduzir até a sala do Julgamento. Não tenha medo. Entre no barco.
Marcelo: Você me garante que não preciso ter medo?
Barman: Eu prometo. Repito, aqui não é a Terra. Não existe o medo.
O barco saiu em direção ao infinito do oceano. O Barman remava pacientemente, e os dois continuaram conversando.
Marcelo: Sabe, Sr. Morte, aqui parece ser muito melhor do que lá na Terra. Esse paraíso me passa agora uma paz que eu nunca tive.
Barman: Mas aí está o grande desafio de Deus, garoto. Encontrar a paz num ambiente caótico como tem sido a Terra. Aqui é muito fácil ter paz.
Os dois continuaram conversando, até que o celular do Barman tocou. Era Deus. Conversaram por algum tempo, até que o Barman desligou o celular e disse:
Barman: Bom, rapaz, nós temos aqui um engano. Você não devia estar morto.
Marcelo: O que?! Como assim?
Barman: É isso mesmo. O Senhor me contactou agora e me disse que houve um engano. Você está se recuperando no hospital. Está inconsciente, mas fisicamente está bem.
Marcelo: Impossível. Eu estou morto sim. Quero ficar aqui, não quero voltar para aquele inferno lá embaixo.
Barman: Mas não está na hora de você morrer. Você terá que voltar, Marcelo. Obedeço a ordens superiores.
Marcelo: Não, Sr. Morte, por favor. Não quero viver.
Barman: Sinto muito, garoto. Reencontraremos-nos novamente. Leve os aprendizados que você teve aqui e aproveite a vida. Ah, e não se candidate a nenhum cargo político.
O Barman pegou uma âncora no fundo do barco, enquanto Marcelo se mostrava confuso e cabisbaixo novamente. Em seguida, completou:
Barman: Irei amarrar essa âncora em um de seus pés. Em seguida você vai pular dentro d’água e vai acordar na Terra em pouco tempo.
O Barman foi andando em direção a Marcelo, que retrucou:
Marcelo: Vamos fazer negócio, Sr. Morte.
Barman: Aqui não tem negócio, garoto. Vamos amarrar isso em seus pés.
O Barman tentou entregar a âncora a Marcelo, porém este se assustou e começou a andar para trás. Deu dois passos e tropeçou na borda do barco, caindo dentro d’água.
Cerca de duas horas depois, Marcelo abriu os olhos. Estava no hospital, e sentindo-se muito bem, por sinal. Sua mãe soltou um grito de alegria, e em seguida começou a chorar. Mãe e filho se abraçaram, e começaram a conversar sobre os sentimentos que cada um teve durante a inconsciência de Marcelo. No fim do diálogo, sua mãe revelou:
Mãe: Marcelo, você disse algo, mais ou menos uma hora antes de acordar.
Marcelo: Ah, é? O que foi que eu disse?
Mãe: Acho que você disse: “Somos bons porque somos bons”
Arthur Viggi
Contos Sujos - Diálogo com a Morte - Parte 2

Se você não está acompanhando este conto, a primeira parte está logo aqui em baixo. Se está, manda bala na segunda!
O Barman, que estava agora limpando alguns copos, parou pacientemente e se virou novamente para Marcelo.
Barman: Olha, Marcelo, não existem mentiras desse lado. Você está morto mesmo. Sofreu um acidente de trânsito quando ia para a faculdade. Sinto muito, o que posso fazer agora é lhe conduzir ao Julgamento.
Marcelo: Julgamento? Que Julgamento?
Nesse momento Marcelo se beliscou várias vezes e até chutou uma cadeira para certificar-se de que não estava sonhando. Então, começou a chorar.
Marcelo: Como assim eu tô morto? Não é possível, eu sou muito jovem pra isso. Nem aproveitei a vida direito. Estudei pra cacete. Não faço mal a ninguém. Não posso morrer agora.
Barman: Mas você já morreu. E além disso, você vai se acostumar com este lado. Aqui não existem mentiras, nem lugares, nem dinheiro, nem desigualdade social, nem filósofos e nem advogados.
Marcelo: E quem é você afinal?
Barman: Não faça mais perguntas, por favor. As pessoas nunca gostam de mim depois que sabem quem eu sou.
Marcelo: Eu insisto. Você é minha única companhia nesse lugar e quero saber quem é você.
Barman: Tudo bem. Vou dar uma dica: meu nome começa com “M”.
Marcelo: Maluf?
Barman: Não, seu idiota! Eu sou a Morte. Sou o responsável por pegar as pessoas que estão vivas e levar para o Julgamento.
Marcelo: O que? Então foi você quem me trouxe até aqui?
Barman: Sim.
Marcelo: Seu cafajeste. Como pôde?
Barman: Eu te disse que ninguém gosta de mim. Por que insistiu em saber meu nome?
Marcelo sentou-se em uma das cadeiras e finalmente começou a beber o coquetel.
Estava agora fechado e cabisbaixo. O homem prosseguiu com a conversa:
Barman: Olha, as pessoas morrem, e a morte não tem idade. Você deve saber muito bem disso. Contente-se com a vida que teve e aceite o papel que está assumindo agora. Quanto mais facilitar as coisas, mais rápido sairá daqui. Deixe-me fazer meu trabalho.
Marcelo, que estava olhando pro chão e bebendo o coquetel, voltou a falar:
Marcelo: Mas você falou em Julgamento! E se eu for pro inferno?
Barman: Aqui não existe nem céu nem inferno. Nosso julgamento não é o julgamento que vocês usam na Terra. Aqui não existe Constituição, todas as pessoas já pagaram pelos seus erros quando estavam vivas. O Julgamento é um evento simbólico que representa o fim da vida e a plenitude da paz. Sem cadeias, sem advogados. No seu planeta as pessoas mais ricas utilizam seus recursos para acumular ainda mais recursos, sem se preocupar com a exploração da mão-de-obra, com as florestas e com o que vocês chamam de Lei. No final elas acabam se afogando na própria ganância. A sentença da Terra é o ódio e a rejeição. Aqui a sentença é a paz. As pessoas caminham juntas, sem distinção de classes. É uma versão transcendental do que vocês chamam de comunismo.
Marcelo: Entendi. Mas então quer dizer que as religiões estão erradas?
Barman: As religiões são uma má interpretação da idéia de Deus. Toda instituição humana tem corrupção e abusos, e a Igreja não é diferente. Ela se mistura com a política e costuma ter os mesmos interesses dos mais poderosos. Reproduz a lei dos homens na lei de Deus. Fala como se aqui existissem cadeias e cadeiras elétricas. Mas isso não se aplica, é claro, a todas as pessoas que participam dela. No entanto, as pessoas devem ter senso crítico. Devem ajudar aqueles que se mostram merecedores de ajuda. A solidariedade sem mediações é a melhor forma de entrar em contato com Deus, e muitos não percebem isso. Preferem procurar instituições burocráticas como a Igreja para alimentar seus espíritos. O conceito de Deus vai muito além do conceito de instituição. O homem, por si só, já carrega bondade, moral e ética dentro de si. Não é preciso ter uma religião para saber os mandamentos de Deus. Os mandamentos estão na genética humana. Quando somos amigos, compreensivos e benevolentes uns com os outros, a vida naturalmente nos devolve as coisas boas que semeamos. E quando fazemos o contrário, ela nos devolve o contrário. Aqui as pessoas equilibram seus instintos com a razão e assim encontram o verdadeiro caminho da felicidade. Sem igrejas, sem dinheiro, sem posses.
Marcelo: Hummm... Muito interessante. Então quer dizer que é impossível ser feliz na Terra? Pois lá coisas como a posse sempre irão existir...
Barman: Não é impossível. Na verdade nem é tão complicado ser feliz. Porém no seu planeta existe o capitalismo, e não se pode simplesmente ignorá-lo. O homem se torna corrupto quando se trata de poder e de dinheiro, e o sistema econômico de vocês nunca vai mudar. O que eu penso é que você pode fazer mudanças em sua própria realidade, sem ter que apelar para o sistema, que é muito burocrático. Então, te aconselho a ajudar o próximo seguindo os mandamentos que estão impressos nos seus genes. Não se meta com a política, mude o que está ao seu alcance e aí você descobrirá a felicidade.
Continua...
Contos Sujos - Diálogo com a Morte - Parte 1

Marcelo Freire tinha 28 anos de idade. Era jovem demais para morrer, mas, infelizmente, já estava quase morto. Estava indo para a faculdade numa noite de segunda-feira quando atravessou uma rua de mão-dupla, com o sinal fechado, e por descuido olhou somente para um dos lados. Era estudante de Direito e tinha se formado em Filosofia, mas trabalhava como carteiro.
Estudava agora para ser advogado e ganhar o dinheiro que não ganhou como filósofo, deixando o emprego de carteiro de lado. Foi atropelado por uma ambulância que estava sem nenhuma emergência no momento, e, portanto não passou com a sirene ligada. É até irônico alguém morrer atropelado por uma ambulância. Marcelo sempre teve medo do trânsito e na maioria das vezes esperava o sinal verde para atravessar a rua.
Mas desta vez estava atrasado para a primeira aula e nem olhou para o semáforo. Ele pensava muito sobre a quantidade de vezes que quase somos atropelados no trânsito, e definitivamente não considerava essa uma forma nobre de se morrer. Concordo com a visão do quase-morto, acredito que o Ministério da Saúde fará no futuro uma campanha contra os atropelamentos no trânsito.
As multas passarão a vir com uma advertência atrás, com mensagens do tipo: “Atravessar causa impotência” e “Dirigir pode causar dependência física e psíquica”.
Foi então que Marcelo se viu numa praia paradisíaca. Estava muito próximo do mar. As ondas quebravam e a água chegava sutilmente até seus pés. O céu estava muito limpo e o sol quase se pondo. Não via ninguém e nada além de água, areia e uma cabana no fundo da paisagem. Resolveu ir até lá pedir informações.
Chegando lá, encontrou um homem alto, vestido de terno preto e com um chapéu inclinado. A cabana tinha garrafas de todos os tipos de bebidas que se pode imaginar, e o homem estava misteriosamente preparando um coquetel em um lugar deserto como aquele. Marcelo interrompeu-o:
Marcelo: Com licença. Onde a gente está?
Barman: Nós não estamos em lugar nenhum. Não existem lugares aqui desse lado.
Marcelo: Como assim? Eu tenho que ir pra faculdade. Me diz como eu chego no Centro da cidade.
Barman: Aqui desse lado não existem cidades. Estamos esperando o barco, tenha paciência.
O Barman serve o coquetel a Marcelo.
Marcelo: Você é um cara muito estranho. Vamo falar com clareza aqui. Eu quero saber agora como eu chego no Centro da cidade. Tô atrasado, pó. Pára de me enrolar e fala logo, por favor.
Barman: Esse lugar não tem saída. Sente-se aí e fique a vontade. A única saída é através do barco.
Marcelo: Como assim não tem saída? Todo lugar tem uma entrada e uma saída, a não ser que a gente esteja numa ilha.
Barman: Nós estamos numa ilha. Se chama ilha do Alem.
Marcelo: Ah, tá. E por acaso eu estou morto?
Barman: Bom... sim.
Marcelo: Eu só posso tá sonhando.
Continua...
terça-feira, 7 de junho de 2011
Contos Sujos - Flávia Dupont - Parte 3

Se você não está acompanhando este conto, leia as duas primeiras partes logo aqui em baixo. Se está, manda bala na última!
Comprou passagem só de ida para meus sonhos. Nas raras vezes que a via pela universidade, meu coração batia forte, minhas pernas tremiam. Até que seis meses depois tive, inesperadamente, meu primeiro contato com Flávia. Eu costumava ficar na porta da universidade pedindo caronas para voltar para casa.
O dia estava com uma bela tarde ensolarada, passarinhos cantavam nos bosques da universidade. Estava eu com meu dedo apontado para o lado, encarando todos os motoristas que passavam com uma expressão de leve tristeza, às vezes necessária, eu acredito, para que oferecessem carona. Foi então que Flávia apareceu, num Ford K preto. Ela estava simplesmente linda dirigindo aquele carro.
Transmitia uma imagem de mulher segura, resolvida. Ela se aproximou do portão, parou o carro e acenou para mim. Ah! Que felicidade! Pena que aquele momento foi abstrato demais para ser fotografado. Eu entrei no carro, quase não acreditando que aquilo estava acontecendo. Eu sorri para ela, e começamos a conversar.
“Obrigado pela carona”, eu disse.
“Ei, vamos lá. Como você se chama?”
“Meu nome é Roberto. E o seu?”
Eu não sabia seu nome até então. Fui descobrir seu sobrenome dias depois, pesquisando na internet a lista de aprovados no vestibular do ano em que ela o prestou. Mas, continuando...
“Flávia. Você faz o quê aqui?”
“Letras. E você?”
“Estatística. Estudamos coisas bem diferentes, an?”
“(Risos) Pois é. Eu lembro de você passando perto da minha faculdade...”
Fomos conversando durante toda a viagem. Ela era, além de bela, muito culta. Conversamos sobre livros. Pela primeira vez a coisa parecia sair do platonismo e tomar uma dimensão real. Ela estava ali, ao meu lado, conversando comigo. Falávamos um pouco sobre nossas vidas de estudante, sobre perspectivas para o futuro. Foram os quinze minutos mais esperançosos de minha vida. É uma pena que eles passaram tão rápido, e eu não pensei numa desculpa para seguir viagem com ela. Ela perguntou:
“Onde você desce? Daqui eu vou pra esquerda.”
Estávamos num trevo. Eu costumava descer por ali, pois minha casa era para a direita. Mas por que eu não menti? Seria tão fácil. Respondi, ingenuamente:
“Eu fico aqui mesmo.”
Pronto, o sonho acabou. Nós nos despedimos, eu desci do carro e nunca mais a vi. Aposto que você, leitor, estava esperando um final bem melhor do que este. Mas essa é a verdade. Você pode me criticar por não ter conversado com Carla Soares ao invés de achar que ela ia se assustar, ou por não ter tomado uma atitude mais relevante quando tive a oportunidade de conversar com Flávia Dupont.
Talvez se eu tivesse escolhido ir para a esquerda poderia prolongar a conversa até conseguir um telefone, ou intimidade suficiente até para convidá-la para um evento qualquer, uma peça de teatro, uma sessão de cinema, uma coca-cola na padaria. Mas o mundo não gira em torno do “talvez”.
Talvez você deva aprender com meus erros e se tornar frio e calculista. Não se apaixone por ninguém, não se case, não veja comédias românticas e não leia livros do Romantismo. E não vou dizer meu nome completo, pois não quero que fãs inconvenientes me mandem cartas e e-mails fazendo piadas e declarações de amizade. Estou tentando esquecer Flávia Dupont através desse desabafo. Oh! Como ela era linda...
Notas do Narrador Onisciente
Então Roberto começou a chorar sobre a mesa. O Romantismo permanecia dentro dele, apesar de ele renegá-lo. Terminou seu desabafo com a frase: “Seguindo a lei do mais forte, naturalmente eu perdi a disputa.”
Arthur Viggi
Contos Sujos - Flávia Dupont - Parte 2

Se você não está acompanhando este conto, a primeira parte está logo aqui em baixo. Se está, manda bala na segunda!
Comecei a estudar seus hábitos e percebi que ela sempre passava pela rua por volta mais ou menos de meio-dia. Então comecei a passar pela rua a esta mesma hora. Nos cruzamos algumas vezes, e em uma delas eu me senti altamente sedutor, levando em conta o sorriso que ela dirigiu a mim. Mas o contentamento não durou muito. Ouvi ela falando com alguém, me virei de costas e pude avistar seu namoradinho engomado.
Tenho que admitir que ele era bonito e tinha mais cabelo do que eu. Mas por que o maldito foi aparecer para atrapalhar a minha vida? Tudo fazia parte do plano, talvez. Eu iria ter que esperar somente mais alguns dias até que a linha torta do destino fosse corrigida e ela caísse nos meus braços. Mas isso jamais aconteceu. Depois disso rasguei tanto o livro do Machado de Assis quanto o do Paulo Coelho.
Logo depois conheci a terceira garota. Era Renata Sobrado. Linda, olhos castanhos, cabelos cacheados, sorriso encantador e corpo curvilíneo. Essa foi a primeira garota pela qual eu me apaixonei dentro da faculdade. Oh! Como a faculdade pode ser um lugar tão rico de mulheres lindas que não te dão a mínima! Renata era sublime, delicada, tinha um ar de seriedade que conquistava até os professores. A propósito, eu não a conheci. Mas quem precisa conhecer quando se está apaixonado?
Eu sou estudante de Letras e ela, de História. Fizemos uma disciplina juntos - eu me matriculei na disciplina apenas para ter o prazer de vê-la todas as terças-feiras - e foi uma verdadeira tragédia. Você deve até achar engraçado eu não ter a conhecido, mas eu posso me defender contra qualquer crítica. Apesar de estarmos na mesma sala, eu nunca consegui uma situação apropriada para abordá-la. Quando eu chegava antes dela, ela nunca se sentava perto de mim. Quando eu chegava depois, todos os lugares em volta dela já estavam ocupados. E mais: ela tinha um amigo gay, insuportável, não pelo fato de ser gay, mas pelo fato de ficar o tempo todo colado nela.
E como falava, o sujeito. Certa vez consegui me sentar atrás dela. Fiquei tão feliz! Até mexi em seu cabelo sem que ninguém percebesse. Depois aproximei meu rosto para tentar sentir o cheiro de seu perfume. Sublime! Nunca imaginei que alguém pudesse ser tão sexy, mesmo falando sobre Adam Smith. Renata falava sobre "A Riqueza das Nações" naquele seminário, enquanto eu me imaginava deitado com ela na cama com o livro de Smith jogado no chão. Na minha apresentação, fiquei tão nervoso com o fato de Renata estar me observando que gaguejei veementemente no discurso sobre o modo de produção socialista.
Vocês tinham que me ver falando: "Então, o Karl Marx escreveu... escreveu... escreveu...". Bom, a esta altura o ano já estava terminando e não tive nenhuma boa oportunidade de conhecê-la. Droga! As férias chegaram e eu consegui tirá-la da cabeça depois de muitas despesas com revistas masculinas.
A quarta e última garota antes de Flávia Dupont foi Carla Soares. Carla era tão incrível quanto as outras, porém tinha o adicional de ser rica. Não que eu seja interesseiro. Mas é importante deixar claro esta sua característica para mostrar a você, leitor, a dificuldade que é se relacionar com uma mulher de um nível sócio-econômico diferente.
Não estou dizendo que ela fosse interesseira e tampouco que isso seja uma desculpa para eu não ter conquistado-a. Porém, nós pertencíamos a universos totalmente diferentes. Enquanto ela morava num condomínio fechado, numa casa que teria provavelmente uns 40 metros de frente, 3 andares e um jardim com um monumento em homenagem a seu avô, eu morava numa casa que não tinha sequer um interfone.
casa estava no intermédio do Centro com a Periferia, não tinha nenhum monumento e tampouco meu avô foi alguém importante. Ele era descendente de italianos e abriu uma pizzeria que nunca vendeu pizza alguma. Quando eu tinha 7 anos de idade fui descobrir que na verdade não era uma pizzeria, e sim um bar. Paolo, meu avô, era um sujeito esperto, malandro, e teve a infeliz idéia de colocar uma placa na porta do estabelecimento anunciando “Pizzeria do Paolo”. Os casais entravam procurando uma boa refeição e encontravam bêbados e uma mesa de sinuca.
O negócio, é claro, não durou muito tempo. Mas, voltando a Carla, como é que eu chamaria a atenção de uma garota como aquela, linda, maquiada, produzida e com tudo o que você quer conquistar, mas que já nem passa mais pela sua cabeça de tão utópico que se tornou? Eu era só um estudante de Letras que sonhava em ter uma casa própria e um carro que conseguisse sair da garagem. Carla era uma estudante de Medicina que tinha tudo o que eu nunca vou sonhar.
E ainda por cima era estudante de Medicina! Combinou seu poder econômico a sua inteligência para ganhar mais dinheiro do que já tem, enquanto eu estudo para no máximo ser um professor de inglês que vai dar a ela aulas particulares, e depois ser trocado por outro devido ao fato de ela não ter gostado da minha dicção. Oh! Mas não vamos continuar relativizando tudo, não é mesmo, leitor? Aposto que você se identificou comigo e torce para que eu lhe conte que pelo menos quase consegui conquistar Carla Soares. Mas foi impossível, mais impossível do que conquistar Renata Sobrado. Eu até tentei fazer Anatomia só para poder falar que, no mínimo, já fui da mesma sala que Carla.
Porém, quando fui até o departamento de Medicina pedir uma vaga eles não aceitaram meu pré-texto. Eu disse que queria fazer a matéria pelo fato de estar trabalhando em um projeto de monografia que discorreria a respeito da relação entre a postura de Carlos Drummond de Andrade em sua cadeira e o sucesso de suas obras. Fui ridicularizado no departamento, e saí de lá desiludido. Eu costuma ver Carla apenas uma vez por semana, quando ela esperava seu carro com motorista particular. Uma vez até pensei em abordá-la, puxar assunto e ver se ela iria corresponder. Estava sozinha na calçada, esperando, com uma expressão amena.
Até parecia, por um momento, que ela fosse uma garota normal, no sentido de não ter um carro com motorista particular. Mas hesitei em me aproximar temendo que ela entendesse aquilo como um assalto. Assim termina minha história com Carla Soares. Ela, que provavelmente nem sabe da minha existência, e eu, que fui platonicamente apaixonado por ela até conhecer Flávia Dupont.
Flávia estudava Estatística. O departamento de seu curso se localizava próximo ao meu, sendo que os dois eram conectados por algumas escadas e morros. Eu a vi duas vezes passando pelo departamento de Letras, e nossa, como ela brilhava! Sem que eu percebesse, seu rosto se alojou em minha memória.
Continua...
domingo, 5 de junho de 2011
Contos Sujos - Flávia Dupont - Parte 1

Flávia Dupont
Notas do Narrador-Personagem
Flávia Dupont era linda. Ruiva, cabelos lisos, curtos e caindo nos olhos, com um rosto fino e encantador. Tinha um corpo magro, porém marcante. Não era seca como uma modelo, nem exageradamente torneada como uma dançarina de funk. E eu, tão inocente, fui me apaixonar por ela. Como um sujeito absolutamente comum como eu poderia ter alguma chance com uma mulher dessas? É o tipo que ilumina o ambiente, inspiradora, encantadora. Ah! Meu maior defeito é ser tão sensível e romântico. Apaixonei-me por tantas mulheres na vida que você não iria acreditar se eu entrasse em detalhes.
Quando eu tinha 10 anos de idade me tive uma queda pela Christiane Torloni. Todas as noites ligava a TV pouco antes da novela, esfregava as mãos e as encostava na tela do aparelho com a esperança de ser sugado pra dentro da novela. Não me lembro porque diabos fazia isso, mas enfim, é a verdade. Sempre fui um cara platônico, somente agora estou abandonando o Romantismo para cair na realidade cruel. A única vez em que consegui conquistar uma mulher pela qual eu tinha me apaixonado foi há 4 anos atrás.
Não sei se você consideraria esse um caso legítimo de conquista, pois a mulher era na verdade uma dançarina de um clube noturno e, nas horas vagas, atuava como prostituta para complementar seu cachê. Sim! Eu paguei-a para ficar comigo. Mas quem é você, leitor, para dizer que isto não é legítimo? Você não consegue enxergar que o mundo é movido por interesses? A arte da sedução está corrompida, não existe jogo limpo. Tudo bem que Paula Bonaventura riu da minha cara depois que eu abri o jogo e me declarei para ela.
E ainda me devolveu um comentário humilhante. Ela disse: “Você não me pagou o suficiente para que eu me case com você, meu bem”. Depois de vários encontros, quando minha poupança já estava zerada, ela teve a coragem de me dizer tal ofensa. Voltei para casa aos prantos, prometendo nunca mais me apaixonar. Mas foi em vão. Apaixonaria-me ainda mais quatro vezes, antes de ter a visão ofuscada pelo brilho de Flávia Dupont.
A primeira delas foi Suzanna Reis, com seus 1,80 metros de altura, olhos claros, cabelos louros e lisos, uma boca incrivelmente carnuda e um corpo esculpido por um arquiteto que provavelmente tinha pós-doutorado. Eu a conheci no terceiro ano, em uma sala que tinha 20 homens igualmente fissurados pela garota. Ela era do tipo que arrancava suspiros poéticos em todos os lugares que passava. Digo suspiros, mas se trata de um eufemismo, obviamente.
Em todos os corredores podia-se ouvir comentários vulgares e maldosos a respeito dela, tais como "Suzanna é muito gostosa" ou "Que rabo!". Ela costumava se sentar numa das primeiras carteiras, enquanto eu me sentava mais ao fundo, perto de amigos a quem todos consideravam uns babacas. Acredito que eu não era tão criticado quanto meus amigos, pois tinha contato com vários outros colegas que não eram do meu grupo.
Tudo bem que a maior parte dos contatos era feita quando algum deles precisava de alguma coisa, mas não precisamos considerar isso, certo? Bem, mas o fato é que a garota estava lá, linda, e eu me apaixonei por ela. Ela me lembrava a Sharon Stone no filme "Instinto Selvagem", principalmente quando vinha para a aula de saia. Eu tinha arrepios quando me lembrava da cena em que Sharon cruzava as pernas, sem calcinha, e em seguida imaginava Suzanna fazendo a mesma coisa, o que me dava arrepios em dobro. Você já teve aquela sensação de que vai se dar muito bem com uma garota antes mesmo de tê-la conhecido? Eu senti isso muitas vezes na minha vida, e em todas elas acabei dando mal.
De agora em diante não acontecerá mais, eu posso lhe assegurar. Mas, enfim, Suzanna gostava de conversar com suas amigas na hora do intervalo, no corredor da escola. Uma vez eu consegui encontrá-la sozinha, mas não sabia como lhe chamar a atenção. Então tive a péssima idéia de cair no chão propositalmente, na vã esperança de que ela me ajudaria a levantar. Ao invés disso, ela olhou para mim com uma expressão absolutamente indiferente, e entrou na sala. Mas tenho certeza de que ela tentou se comunicar comigo através de expressões faciais. Captei uma mensagem mais ou menos assim: "Você é um babaca".
Oh, meu Deus! Como mudamos em tão pouco tempo. Hoje em dia nunca agiria de forma tão palerma por causa de uma mulher. Com o passar dos anos, vamos nos desiludindo cada vez mais. Acho que quando eu tiver 50 anos, provavelmente não estarei casado. Provavelmente nunca vou deixar de ser solteiro. Vou atingir os 50 anos frequentando bares de quinta categoria, conversando sobre pessoas que passam na rua ou sobre jogos de sinuca.
Vivendo de aposentadoria e tomando pinga todos os dias, vou ter bastante tempo para não desperdiçar com as mulheres. E o melhor de tudo é que, quando eu tiver essa idade, todas as mulheres que me ignoraram vão estar feias e acabadas, com rugas, filhos e seios caídos.
Prosseguindo, a segunda garota foi Fátima Cardoso. Linda, olhos escuros, cabelos castanhos e cuidadosamente alisados, pernas bem torneadas. Admiro seus pais pela qualidade do produto final. Fátima carregava consigo um ar de adolescente de bons costumes. Parecia ter saído de um livro do Romantismo, bem do jeitinho que eu gostava. Eu li "Helena", do Machado de Assis, na época em que a via passando na rua em que eu morava.
Inocentemente, associei esse livro a um outro livro do Paulo Coelho. O resultado foi que eu achei fazer parte do meu destino conquistar aquela garota e passar com ela o resto da minha vida. A garota tinha se mudado recentemente para a minha rua e eu podia a ver passando pela janela do meu quarto. Mais uma vez, era uma mulher que não passava despercebida em lugar nenhum. Certa vez ela passou pela rua quando um menino de uns 13 anos de idade descia de bicicleta. A rua se tratava de uma pequena elevação com curvas.
Bem, o que acabou acontecendo foi que menino cruzou com Fátima e fixou os olhos nela por um tempo. Esse intervalo de tempo foi suficiente para que ele subisse com a bicicleta na calçada e depois descesse um escadão com 80 degraus. Ainda assim, acredito que permaneceu com os olhos fixos em Fátima.
continua...
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Contos Sujos - Vingança - Parte 3

Para que não está acompanhando este contos as primeiras partes você encontra aqui em baixo. Se está, manda bala na última:
Era um revólver. Um 38 com sinais de uso. E junto um pedaço de papel com alguma coisa rabiscada. Tod olhou para o homem deitado no sofá e disse:
-isso é para você resolver o seu problema
-cadê meu conhaque?
-hoje não tem porcaria de conhaque nenhum - disse Tod levemente alterado pegue isso e resolva a sua vida
Tod levantou-se e não disse mais nada. Caminhou até a porta em silêncio. Abriu a porta e foi embora. Loyd olhou para o embrulho. Sua vida tinha chegado a um ponto tão degradante que a morte seria uma solução rápida para um sofrimento prolongado. Marie não voltaria mais. Seu dinheiro esta hora estaria sendo gasto com tudo que o luxo pode oferecer. E enquanto isso ele apodrecia enfermo dentro daquele apartamento com cheiro de merda por todos os lados. Poderia dar um fim naquilo tudo com apenas um leve movimento no gatilho. Resolveu que faria isso. Mas antes precisava de um banho.
Levantou-se com dificuldade e caminhou entre a sujeira no chão. Foi até o banheiro. Abriu a torneira. Uma água suja desceu sujando a banheira. Era fruto dos muitos dias sem ser usada. Entrou na água que estava gelada. Sua pele estava oleosa. Algumas feridas já começavam a surgir pelo corpo. Não demorou mais do que 10 minutos.
Olhou-se no espelho pela última vez. Seu rosto estava completamente diferente de outras épocas. A barba estava por fazer e o cabelo cada vez mais ralo. Voltou para a sala. Pegou a arma e a admirou por alguns segundos. Colocou o cano gelado na boca.
Um segundo. O tiro saiu pelo outro lado da sua cabeça, jogando sangue por todos os lado. Não havia mais vida naquela sala. Ou melhor, aquele simulacro de vida havia sido eliminado.
No papel que envolvia o revólver havia um endereço, rabiscado cuidadosamente. Era de Marie.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Contos Sujos - Vingança - Parte 2

Para quem não acompanhou a primeira parte deste conto está logo aqui em baixo. Para você que está acompanhando, manda bala na segunda!
Tod caminhou até a sala e se sentou. Era praticamente impossível encontrar algum lugar naquele apartamento que estivesse limpo. Retirou algumas garrafas vazias, mas ainda sim não se sentia confortável. Além da sujeira, um cheiro forte de fezes agora tomava conta do ambiente:
-Loyd, você desistiu de ir ao banheiro?
-sim, é perda de tempo...
-perda de tempo? Esse apartamento tá fedendo a merda. Tudo aqui tem com cheiro de merda
-o que importa? - Loyd disse realmente não se importando com aquilo
-pelo amor de deus Loyd, você ainda tá vivo cara. Se você ficar se cagando todo vai piorar essa porcaria que você tem que ninguém sabe o que é!
-Tod, se você veio aqui ficar falando como se fosse uma puta na chuva levanta esse rabo e vai embora daqui. Me dê meu conhaque, meus remédios e não me encha o saco.
-eu não trouxe nada disso hoje... - agora foi a vez de Tod se fazer de desentendido
-como assim seu filho da puta? eu me cagando todo esperando meu remédio... e meu conhaque e você me aparece sem eles? - Loyd estava completamente alterado agora
-calma aí. Eu tenho outra coisa comigo hoje.
Tod tirou um embrulho de dentro de um pacote. Era pesado. Quando colocou o objeto em cima da mesa, uma barulho metálico se espalhou pelo ambiente. Loyd sabia o que era aquilo:
-seu filho da puta, você veio me matar?
Continua...
domingo, 5 de dezembro de 2010
Contos Sujos - Quente Solidão - Parte 3

Se você não está acompanhando este conto, leia as primeiras partes aqui em baixo. Se está, manda bala na última!
Jane estava nervosa. Continuava falando muito:
-Alec, Alec? me desculpa, não devia ter feito isso... estou arrependida, por favor, estou desesperada, entenda... o que você está fazendo. Posso falar com você? Posso ir aí? eu não sei... fala alguma coisa pelo amor de deus, seu cretino! Não quero falar daquele jeito de novo.. eu acho que eu gosto de você cara, acho... estou confusa...
Alec escutou tudo pacientemente. Não sabia o que dizer. Soltou a primeira coisa que veio a cabeça, sem pensar:
-traga a Julie aqui.
-como assim Alec, o que tem a Julie a ver com a gente?
Alec disse novamente sem explicar:
-traga a Julie aqui. Se você quiser ver, pode ficar também.
-como assim Alec, do que você está falando? - perguntou Jane
-quero ver a Julie. Tenho tesão nela.
-puta que pariu Alec, você é um filho da puta.
Jane bateu o telefone com força. Alec novamente não se preocupou. Levantou-se e saiu da posição de transe. Foi até a cozinha e preparou algo para comer. Ovos com bacon. Jogou as embalagens no chão. Enquanto o cheiro de fritura se espalhava pelo apartamento, ligou o som.
Escolheu um Blues. Jhon Lee Hooker. Comeu, se fartou. Pouco mais de quarenta minutos depois, sua campainha já estava tocando. Foi a porta, agora completamente nu, e olhou pelo olho mágico. Era jane. E estava acompanhada de Julie. Ele virou a maçaneta, e atendeu:
-olá, en...
Não deu tempo de terminar de falar. Jane aplicou-lhe um tapa com a mão espalmada. Ele fingiu não sentir. Fez um gesto para que elas entrassem. Elas entraram e se sentaram. As duas em um sofá, ele de frente para elas. Começaram um breve diálogo. Jane queria saber tudo:
-o que estava fazendo esta semana?
-pensando - disse Alec, nu, sentado e de pernas cruzadas.
-e agora o que está fazendo?
-pensando - Alec desdobrou as pernas. Seu pênis estava duro.
Julie ficou corada. Jane furiosa. Ela o repreendeu:
-vai deixar está merda desse jeito? Nos chamou aqui para isso?
Alec não respondeu. Levantou-se e foi em direção a Julie. Jogou seu corpo em cima do dela. Agarrou-lhe os seios com voracidade, quase rasgando a blusa. Enfiou sua língua como uma serpente na boca da mulher. Julie respondeu. Pegou o pênis do homem com força, fazendo um movimento rápido para cima e para baixo. Jane olhou a cena chocada e falou, boquiaberta:
-mas vocês dois são uns filhos da puta!
Não demorou muito para que fossem para a cama. Julie gritava, querendo ser atacada. Jane tirou a roupa, deitou-se ao lado, jogando o corpo de Julie para fora da cama.
Virou-se para Alec, dizendo com autoridade:
-você é um filho da puta. Mas é o meu filho da puta.
Alec seguiu revesando-se entre as duas mulheres tomadas de tesão. Tinha pensado muito durante a semana Era muito tempo. E a única conclusão a que havia chegado era que "tesão é tesão" e ponto final. Arrumou-se e resolveu sair para pensar um pouco. Sua cabeça estava uma bagunça. Uma cerveja lhe faria muito bem.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Contos Sujos - O Jardim dos Sonhos - Parte 1

Apesar do caos que a cidade havia se transformado, havia um lugar em Big City que aqueles que tinham coração ruim não ousavam pisar. O lugar ficava afastado do centro da cidade. Eram pelo menos quarenta minutos de carro em estrada boa, e pelo menos mais duas horas andando em uma estrada perigosa, e sem qualquer tipo de sinalização.
E apesar de tudo, muitos ainda diziam que o lugar era só uma lenda urbana. Nas ruas, quem sabia da existência não ousava comentar sobre o assunto. Isto por que todos aqueles que foram até o “Jardim dos Sonhos” nunca voltaram.
Mas havia uma pessoa que sabia mais do que qualquer um. Japhy, o mendigo. Todos diziam que ele havia sido a última pessoa a voltar de lá, e havia endoidado depois que voltou. Mas ainda sim sabia como chegar, e entrar no Jardim dos Sonhos.
Billy queria ir até o jardim. Sabia pouco. Não mais do que todos sabiam. A lenda dizia que o Jardim faz parte de tantos outros, onde os sonhos são plantados. Lá, cada homem ou mulher que um dia tenha sonhado algo, encontra. Vidas, viagens, experiências.
Está tudo lá, crescendo. Ou não. Existem sonhos que não vingam. As pessoas de coração ruim, produzem sementes que não dão liga e que morrem logo. Outros sonhos não são plantados, e ficam guardados até que exista espaço na terra para que ele possa nascer.
E outros ainda são dispensados pelo jardineiro. Estes dependem de julgamento, mas a maioria é jogada fora.
Continua...terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Contos Sujos - A Primeira Visão ao Acordar - Parte 1

É quando se abre os olhos e assim se vê a primeira imagem do dia, ainda desfocada, que se nota em que estado você se encontra, em que quarto você se encontra, em que encrenca você encontra. É um impacto, uma confusão sem tamanho, é a memória do dia anterior tentando voltar, os sonhos tentando sair, e as novas informações se acumulando. A velocidade disso tudo vai depender de fatores como 'a quantidade de bebida ingerida nas últimas 24 horas', 'a quantidade de sono nas últimas 48 horas' e a 'a quantidade de[POF! ...] ...
Eis o que está passando pelo meu cérebro agora. Estou num quarto desconhecido, com um corpo morto e desconhecido e ensanguentado ao meu lado e com um russo enorme e desconhecido na porta. Estou certo que logo vou ser lembrado por este mesmo desconhecido sobre o que está ocorrendo. Ou isso, ou pelo menos vamos ter um papo saudável, daqueles cara e punho, punho e rins ou o que vier primeiro. Pelo olhar dele acho que será palma da mãe em garra e pescoço, mas posso estar enganado.
Tentando evitar esta situação constrangedora reuno todas as poucas forças que meu corpo já consegue administrar e me jogo para o lado, caindo ao chão e percebendo que não estou tão mal assim, mas já estive, reconheceria este vômito em qualquer lugar e então suponho que devo ter seguido o meu padrão e bebido bastante whisky com água na noite passada, mas já tinha me despedido dele aqui mesmo no quarto.
Sem tempo para pensar mais neste assunto fascinante, olho para a porta e não vejo nada. Olho para o outro lado e novamente não vejo nada, só que agora é de uma forma diferente. Nosso papo foi punho e lateral do olho direito mesmo. Não vi nada pois antes mesmo de racionalizar o que acontecia, já estava desacordado no ombro do brutamontes. Se ele tivesse senso de humor poderia estar repetindo dentro da cabeça 'aproveite a viagem, seu filho da puta'.
continua...
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Contos Sujos-Jogando Bosta-parte 2

Se você não está acompanhando este conto, a primeira parte está aqui em baixo. Se está, manda bala na segunda.
Byron Bilbane chegou ao Mecahn pouco depois das duas da tarde. Tinha sede. Caminhou para o balcão, e acendeu seu cigarro de filtro vermelho. Melvin, o garçon, estava de costas e nem percebeu que Byron estava ali. Começou pedindo um drink, e iniciou o diálogo:
-Melvin, um drink por favor – o garçon se virou, surpreso.
-Byron tão cedo no Mecahn. Isso não me parece bom... - respondeu o garçon.
-Não enche. Traz uma dose de conhaque. O mais barato, consequentemente o pior...
-Aconteceu algo?-enquanto servia a dose, perguntou com seriedade
Byron olhou com fúria. Melvin nunca tinha visto aquele olhar, por mais que o poeta estivesse chapado de ácido ou bebida.
-você leu a porra da coluna do jornal essa semana?
Melvin nem imaginava do que ele estava falando, mas mesmo assim explorou a conversa:
-não. Mas qual o problema com a coluna?
-aquele esquisito, e o japonês capanga dele me espinafraram no jornal. Disseram que minha arte é uma merda. Limpei a bunda com o jornal deles hoje de manhã... – já bebia o conhaque e fazia uma cara horrível a cada gole.
- relaxa Byron. Deixe sua bolsa aqui comigo, e vai lá pra sua mesa tomar seu conhaque.
Byron carregava uma bolsa. O movimento de Melvin para pegar o objeto foi interceptado e seguido de um gesto negativo feito pelo dedo do peta. Byron pegou a bolsa, o conhaque e foi até a sua mesa. Acomodou-se no fundo do bar, onde costumava ficar com os outros. Porém, desta vez, estava sozinho. E ali ficou durante toda tarde e o início da noite, bebendo e bebendo seguidas doses, hora de conhaque, hora de qualquer outra porcaria que Melvin preparasse.
O Mecahn foi enchendo devagar, conforme a noite foi chegando. A embriaguez de Byron seguia no mesmo ritmo. Quando os outros poetas chegaram, já encontraram Byron em um estado deprimente. Além de bêbado como um gambá, um cheiro horrível circulava no ambiente, o que dava a impressão de que o poeta havia perdido o controle sobre suas funções fisiológicas. Em pouco tempo, os sujos saberiam que cheiro era aquele.
continua...
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Contos Sujos - Jogando Bosta - Parte 1

A livraria De Marco era o principal ponto de encontro de poetas e escritores de Big City. Apesar de ficar bem no centro cidade, estava longe dos clubes e boates que movimentavam a noite na cidade. Era o lugar ideal para os sarais e clubes de leitura que fervilhavam a cena cult.
Na calma rua, ainda funcionavam uma pequena mercearia e um bar, o Mecahn, de clima não muito familiar, que ficava praticamente em frente a livraria. Se não fosse pelo bar, que tinha um público que não era em nada ortodoxo, à área teria tranqüilidade absoluta.
O Mecahn abria cedo. Todo tipo de gente passava ali. Na parte da manhã, trabalhadores que tomavam uma ou duas doses de conhaque de qualidade duvidosa para agüentar o tranco do dia. À tarde alguns comiam algo, apesar da culinária da casa ser deprimente. Logo depois do horário de almoço chegavam aqueles que durariam o restante da tarde, e por vezes, até a noite inteira. No meio da tarde, um outro grupo se encontrava ali. Eram os “cadeira cativa”.
Passavam a tarde bebendo, fumando e jogando bilhar. E no fim do dia, chegavam os últimos na composição. Eram os chamados poetas sujos, um grupo relegado ao anonimato das ruas, e que se encontrava no bar para confrontar com os poetas da linhagem da livraria.
Ao contrário da erudição e do belo, os poetas sujos tratavam das ruas, do movimento contracultural e da arte contemporânea, coisa que parecia absurda ao grupo rival, influente nos principais veículos especializados da cidade.
Morgan Bartch, com seus versos melódicos e o oriental Lee Katsu, com as traduções de mantras e cânticos budistas eram os líderes do movimento da livraria. Ambos escreviam no City Post, e no portal Poetry, principais jornal e portal da cidade respectivamente.
Na reunião que acontecia na livraria eles discutiam junto com o restante do grupo a crítica publicada no dia anterior, assinada por Morgan e Lee ao movimento sujo. Morgan comandava a discussão:
-há arte no que eles fazem? Talvez. Mas arte não é dúvida. Ou você sente ou não. E não sinto, por mais que me esforce, qualquer tipo de arte vindo de textos que falam sobre bebedeiras, heroína e vulgaridades...
Lee forçava a conversa:
-Morgan, seja sincero, não tente amenizar a situação. Aquilo não se pode chamar de arte em lugar nenhum. É uma grande porcaria junta, escrita por bêbados que se proclamam poetas.
A discussão seguia quente. Um dos sujos especificamente foi o mais criticado: Byron Bilbane
Continua...

