
Se você não está acompanhando este conto, as duas primeiras partes dele estão no post anterior. Se está, manda bala na segunda parte!
Agora foi a vez do motorista pensar naquilo tudo. Um longo período de silêncio se seguiu enquanto o homem acelerava o carro por planícies e descampados. Ele parecia processar aquelas palavras. Parecia ser a primeira vez que havia escutado algo tão certo em relação a vida.
Do lado de fora, as nuvens ficavam mais feias. O sol já não brilhava e o tempo estava cada vez mais escuro e pesado. Os primeiros pingos riscaram o vidro da frente do carro. Eram pequenos. Aquilo parecia ser apenas uma amostra do que ainda estava por vir. Depois que a chuva começou a cair mais forte, o homem que dirigia o carro recomeçou a falar:
-você tem uma boa opinião. Veja, há tanta gente nesse mundo que perde tempo com tanta bobagem que eu não entendo... perdem tempo em computadores, trocando palavrinhas, mantendo um tesão reprimido enquanto a vida esta aí... correndo aí fora pelos campos, o cheiro de chuva, essa porra toda que conecta o mundo, saca?
-sei. Eu sei exatamente do que você está falando.
A viagem seguiu. A chuva apertou muito no caminho, mas logo o sol já estava de volta no finzinho da tarde. Neil saltou em uma cidade pequena e caminhou por mais algumas horas. É, a vida era aquilo mesmo.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Contos Sujos - Roadster - Parte 3
Contos Sujos - Roadster - Parte 2

Se você não está acompanhando este conto a primeira parte dele está no post anterior. Se está, manda bala na segunda parte!
Neil encostou na porta do carro e colocou o braço para se apoiar na janela. O motorista era um velho barbudo, com uma aparência angelical. Neil iniciou o diálogo:
-para onde vai, amigo?
O velho parou e o observou por alguns instantes. Estava analisando Neil, provavelmente pensando se não estava fazendo uma grande besteira parando o carro ali. Pareceu aprovar o homem que aguardava a resposta do lado de fora e disse:
-vou descer a estrada até onde puder. Não tenho destino, sou um sem destino... se quiser, entre.
-não sou de negar a ajuda dos outros, principalmente vendo que a coisa aqui vai ficar feia. A chuva que vai cair não é brincadeira. Respeito a estrada. Vamos lá...
Neil destrancou a porta e entrou. Jogou sua mochila surrada no banco de trás do carro. Era um modelo Cadillac, muito bem conservado. O estofado era todo em couro branco e a lateral era em um azul platinado que refletia incrivelmente a cor do sol que ainda brilhava entre as nuvens lá fora. Um cheiro bom, de alguma planta tomava conta do carro. Enquanto o motorista se preparava para dar a partida, Neil tentou começar uma conversa:
-meu nome é Neil, qual é o seu amigo?
-meu nome não importa... – disse com um leve sorriso no rosto – vocês caroneiros se esquecem logo depois que saltam do carro o nome daqueles que lhe oferecem ajuda...
Neil sabia que o homem tinha razão. Uma coisa era um roadster eventual, que nem sempre se aventurava na estrada. Outro era um cara como ele, que vivia rodando por todos os lados, com todo tipo de gente. Não havia como guardar o nome de todos.
-sim, você tem razão. É impossível lembrar do nome todos que me ofereceram carona, comida ou abrigo. Estou na estrada há muito tempo. Mas sou grato, e me lembro de cada experiência e por isso sou grato. Mais do que nomes, lembro do que cada um é.
Continua...