segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O Anjo Pornográfico





Nelson Rodrigues é uma figura impregnada na cultura nacional. Considerado reacionário do ponto de vista político, mas revolucionário nos campos da moral, da intelectualidade, da arte e da sexualidade. Creio não ser recomendável passar por este mundo sem conhecer pelo menos um pouquinho de sua ousadia.

Sua obra é um escarro de originalidade. O teatro, como conhecemos hoje, foi inventado por ele. A dramaturgia, como espelho da sociedade, foi personificada por ele. Procure uma frase de Nelson e você encontrará um provérbio, tamanho o número de inferências que você poderá tirar dela.

Nelson era uma pessoa que se confundia com o personagem que criou de si mesmo. E, este por sua vez, se confundia com os personagens que criava nas crônicas e histórias. Nelson foi visceral, apaixonado. Não era boêmio, mas se embriagava de vida. Não era um depravado (ou se foi, era-o de forma saudável), mas usufruiu de sua sexualidade com a tenacidade de um anti-herói.




“O Anjo Pornográfico” é um livro fantástico. Ruy Castro, seu progenitor, parece ter nascido para retratar o biografado. Nostálgico por essência, o autor atingiu o clímax de empatia necessário à transcrição da figura humana de Nelson Rodrigues. O livro nos remete não só ao personagem de Nelson; antes de qualquer coisa, nos apresenta o cenário nacional do princípio do século XX, com a ascensão de Mário Rodrigues, o patriarca da família, à imprensa carioca.

Depois, nos faz mergulhar no contexto fraternal dos irmãos de Nelson, muitos deles também peculiares no meio jornalístico. A propósito, o livro tece com eficiência o retrato do grande Mário Filho, um dos maiores patronos do futebol brasileiro, figura que comercializou, popularizou, reproduziu, incentivou e catapultou o esporte.



A prosa despojada, aliada ao ferrenho trabalho de pesquisa desenvolvido pelo autor, derivou um grandioso trabalho que, como toda boa biografia, leva o leitor a pensar sobre sua própria existência. Não há resultado diverso quando se reproduz a essência de um ser humano, de forma detalhista e visceral, em seus vários papéis. Nelson Rodrigues foi filho, irmão, jornalista, dramaturgo, esposo, adúltero (como seus personagens), pai de família e transgressor de uma forma que muitos gostariam de ser (e eram) nos anos 50 e atualmente. A diferença é que, à época de Nelson, a sociedade rígida e moralista não estava preparada para que lhe jogassem na cara a libertinagem que se consente hoje em dia.

Arthur Antunes


domingo, 18 de janeiro de 2015

Auschwitz e o Café Corporativo




O relacionamento profissional é algo estranho. Os colegas de trabalho estão reunidos em equipe, em prol de um interesse comum. Mas isto não quer dizer que haja amizade entre eles. Aliás, não é nem recomendável que exista amizade no trabalho, por uma questão de bom senso. Eu me recuso terminantemente a me envolver com as pessoas no dia a dia profissional. “Boa tardes” e “tudo bens” já são bastantes. Polêmicas corporativas até caem bem de vez em quando, se você tiver empatia com o insurgente. Alguns comentários de corredor também são válidos. Mas amizade, amizade, não. Amizade e trabalho são como água e óleo. Os problemas de uma esfera afetam a outra decisivamente. Portanto, têm que ser separadas.


Lembro-me bem de meu primeiro emprego, num ambiente muito fraternal e descontraído. Havia um contingente de mulheres que compunham uma panela indelével. A panela, a propósito, era tanto figurativa quanto literal, pois uma das meninas era cozinheira e fazia almoços coletivos na cozinha, como numa república. 
Uma outra usava o telefone da recepção como um orelhão. Fazia longas DR’s e contatos pessoais. Havia também churrascos freqüentes de confraternização. Resultado: a fofoca comia solta; conflitos eram recorrentes; vi colegas cortarem relações por brigas mesquinhas.


Eu mesmo tive problemas, e quando mudei de emprego, 5 meses depois, senti um alívio emocionante. Agora adoto uma conduta anti-social, da qual me orgulho. Já auferi a fama de funcionário “que não dá idéia pra ninguém”. E sou respeitado por isso. Ou pelo menos criticado pelas costas, o que não deixa de ser uma forma de respeito. 
Existem, no entanto, momentos de sofrimento protocolar. E o maior deles é na hora do café corporativo. Vou até a cozinha por uma necessidade fisiológica. Tudo que eu desejo é comer meu pão com manteiga e sair fora. Mas acabo me deparando com brincadeiras, risadas, sorrisos envernizados e conversas clichê.


Se tem um momento em que me sinto uma puta, é no café corporativo. Sinto-me traidor de mim mesmo. Sinto-me um deputado do PMDB. Pois me rendo, afinal, aos protocolos corporativos. Devolvo os olhares, faço piadas incidentais. Abro sorrisos de botox, sou gentil de uma forma que não gostaria de ser. Eu converso.



O café corporativo é como Auschwitz. Não importa os que estão a sua volta. São todos kapos, soldados da SS ou judeus egoístas batalhando por uma ração diária de pão. E você tem que respeitar os comandos protocolares para ganhar o seu quinhão. Tem que se investir numa persona, quando o que realmente importa é apenas o pão com manteiga; a sobrevivência; a ausência de sociabilidade.

Arthur Antunes

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O tempo que é valioso



Vivemos um tempo em que o trabalho nos toma muito tempo. Nossa sociedade se acostumou com a ideia de que o certo é ficar até depois do expediente. Trabalhar 14, 15 horas por dia passou a ser motivo de orgulho. Muitos deixam suas vidas e dedicam as empresas uma parte muito grande de suas vidas, Quantas fotos compartilhamos dizendo que estamos até mais tarde no trabalho? Ou que hoje é dia de pizza na agência? Certamente não são poucas.

Por outro lado, aqueles que mantém uma firme postura com relação ao horário de trabalho muitas vezes são taxados de preguiçosos. São colocados em desconfiança quando apenas cumprem com aquilo que foi acertado. Pois normalmente, em qualquer entrevista de emprego, ninguém lhe dirá que você terá que ficar após o expediente e que isso é normal.

Vivemos ainda um conflito entre os orgulho workaholic e o final de semana. De um lado, o trabalhador orgulhoso de ter que ir a firma no final de semana terminar aquilo que não teve competência para fazer durante os dias úteis. De outro, a turma que reconhece no final de semana um merecido descanso. 

Difícil dizer quem está certo. O certo mesmo é que não somos máquinas. 

sábado, 21 de abril de 2012

Música Suja - Estudando o Samba


O ano era 1986. O cantor David Byrne, do extinto grupo Talking Heads, perambulava pelo Rio de Janeiro e, passando por uma loja de LPs, resolveu pedir alguns discos de samba para conhecer melhor o estilo. E graças à despretensiosa e providencial intervenção de um simples empregado, acabou levando um disco que o marcaria e, por conseguinte, mudaria para sempre a vida de Tom Zé.


 
Depois de ouvir “Estudando o Samba”, Byrne ligou para um amigo brasileiro que residia em Nova York e o interpelou a respeito de Tom Zé. Ficou surpreso ao saber que o músico era pouco conhecido no Brasil e rebateu: “Como é que o Brasil não conhece um artista desses?”. A partir daí, as estrelas da sorte se revelaram para o baiano que, a partir de David Byrne, foi divulgado internacionalmente e retirado do desmerecido ostracismo.


O disco não oferece um samba convencional. Em algumas faixas você até captura elementos do samba controvertido e clássico; contudo, eles são apresentados com a roupagem experimental peculiar de Tom Zé. O artista consegue contrapor erudição, densidade e hermetismo a melodias emotivas, letras grudentas e incrivelmente originais. Em sua quase totalidade, o álbum é composto por faixas nomeadas com monossílabos. “Mã”, “Toc”, “Vai”, “Ui”, “Tô”, “Se” e por aí vai.


Depois de quase duas décadas imerso no esquecimento, Tom Zé encontrou sua tábua de salvação neste maravilhoso trabalho. Experimentou um renascimento musical e passou a ser gloriosamente celebrado nos Estados Unidos e na Europa. Um sucesso de público e de crítica. Ele é mais um dos vários exemplos de artistas que, fugindo do mainstream brasileiro, só encontrou alento no exterior. Aqui no Brasil ele é maldito. Lá fora ele é Tom Zé.

Arthur Viggi

sábado, 14 de abril de 2012

Música Suja - Exile On Main St.

Sendo considerado pela crítica o melhor álbum dos Rolling Stones, não posso deixar de falar do antológico “Exile On Main St.” Foi sem dúvida o ápice da carreira da banda, demonstrando extrema maturidade musical e harmonia na combinação de estilos musicais. Você encontra nele elementos do jazz, blues, country, soul e gospel; uma aglutinação que resultou em Rock N’ Roll e Rhythm and Blues de qualidade.

A versão remasterizada do disco foi lançada há algum tempo atrás, disponibilizando as 18 músicas oficiais e mais algumas extras, com uma qualidade sonora que não deixa nada a desejar. O repertório se inicia com as frenéticas “Rocks Off” e “Rip This Joint”; passa pela clássica “Tumblin’ Dice”, a country “Sweet Virginia”;  e segue com a mesma fórmula em hits como “Loving Cup”, “Let It Loose”, “All Down The Line” e “Shine a Light”. Um disco magnífico, emotivo e, ao mesmo tempo, agitado.

 
Lançado em maio de 1972, o álbum não tem esse nome por acaso. Os integrantes estavam de fato exilados na França no período de composição e mixagem das músicas. Fugiam das alíquotas exorbitantes e da polícia inglesa. O processo todo de produção, inclusive as loucuras, aconteceu no palacete alugado por Keith Richards. O ambiente caótico de produção se refletiu no resultado final: uma mistura complexa, porém harmônica, de gêneros musicais.



Arthur Viggi

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Música Suja - Músicas para Churrasco Vol. 1


Ele é seu amigo, seu companheiro, Seu Jorge. O carioca de Belford Roxo lançou há pouco tempo o álbum “Músicas para Churrasco Vol. 1”, disco de samba-rock com uma pitada de soul. Inspirado na teledramaturgia brasileira, o cantor criou vários contos musicados sobre personagens fictícios ou emblemáticos, típicos das comunidades suburbanas. 


O disco tem uma efusividade contagiante e, até, carnavalesca. Cumpre bem seu papel de animador de churrascos, contendo um repertório de poucos acordes, porém bem combinados. Seu Jorge repetiu a fórmula do penúltimo disco, “América Brasil”, que o fez estourar em sua terra natal, com os sucessos “Burguesinha” e “Mina do Condomínio”. Apenas causa-me estranhamento o contexto em que o artista se popularizou no Brasil. À época do lançamento de “América...”, o cantor já tinha gravado um disco na França, um ao vivo com Ana Carolina, um filme nacional de destaque (Cidade de Deus) e outro internacional (A Vida Marinha de Steve Zissou). 


Eis então que Seu Jorge lança os dois hits já citados, que considero duas de suas piores músicas, e o Brasil passa a conhecê-lo. Muito triste o fato de a maioria das pessoas só notar o que é easy listening. Mas, enfim, nada é perfeito. O cantor tem conseguido conciliar vendas com boas músicas. Aconselho você a ouvir o mais novo disco com carinho, e é claro que ele tornará seu churrasco especial. Ouça também os trabalhos mais antigos, como “Samba Esporte Fino” e “Cru”, álbuns mais voltados para MPB, que trazem o Nosso Jorge em sua melhor forma.

http://www.youtube.com/watch?v=MubPUt0F7_M&ob=av3e 

Arthur Viggi

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Cinema Livre - Duas terça-feiras onze de setembro


O maior atentado terrorista da história foi o ataque às torres gêmeas? Não acredito, aliás, como fica claro nesse vídeo há oculto na história uma outra terça-feira muito mais sangrenta e cruel que a tragédia americana. Dores são dores e não devem ser comparadas. Mas historicamente é preciso refletir.



João Ninguém

domingo, 29 de janeiro de 2012

Música Suja - Noel Gallagher’s High Flying Birds


Confesso que na primeira vez que ouvi o novo álbum de Noel, “High Flying Birds”, fiquei um pouco desapontado. Não encontrei a agressividade do Oasis no disco, o que já era de se esperar, visto que não é um trabalho do Oasis, e sim do Noel. Na verdade, reneguei este álbum por vários meses, desde seu lançamento, simplesmente por ter perdido o costume de ouvir BritPop. Somente há pouco tempo sintonizei meu ouvido na freqüência musical britânica, e agora posso expor uma conclusão sensata a respeito do disco.


O repertório começa com “Everybody’s On The Run”, música que me lembra bastante o som do Seal. O vocal limpo e afinado de Noel se encaixa bem melhor no Pop; daí vem minha estranheza inicial por carência de agressividade. "Dream On" dá seqüência ao disco, usando uma fórmula antiga do Oasis. Digo o mesmo de “If I had a Gun”. "The Death of You and Me" marca a ascensão do disco, com uma sonoridade burlesca, de marchinha, inovando com arranjos de sopro jazzísticos. "(I Wanna Live in a Dream in My) Record Machine" também é uma música cool que segue a fórmula antiga.

"AKA... What a Life!" é uma das minhas preferidas; tem um ritmo dance marcado pela batida da bateria e do arranjo do piano. É provavelmente a música mais contagiante do disco; li inclusive que Noel pensou em oferecer a música a Madonna, devido a sua natureza Pop. "Soldier Boys and Jesus Freaks" também é uma música sensacional, que segue o já citado ritmo de marchinha. A próxima é "AKA... Broken Arrow", outra excelente música que se encaixaria bem numa voz feminina, tal como a de KT Tunstall ou Natalia Imbruglia. "(Stranded On) The Wrong Beach" arrebata com a mesma levada de “What a Life!”. E "Stop the Clocks" e “A Simple Game of Genius” fecha o disco da forma como ele foi começado, me remetendo novamente ao Seal.

Parece que o longo hiato subseqüente ao último disco de Oasis não atrapalhou, afinal, o desempenho de Noel Gallagher. “High Flying Birds” é um disco simples, despretensioso e definitivamente carente de agressividade. Não que isso seja uma crítica; pelo contrário, pode ser uma virtude etérea que comporá a nova identidade do cantor. O desafio é esse mesmo: distanciar-se da imagem do Oasis e, principalmente, do errôneo estigma de ter copiado os Beatles. Noel deu início a uma consistente carreira solo e mantêm-se no patamar de um dos maiores talentos da Inglaterra. O mesmo não digo, porém, de Liam, que apesar da marra icônica e do vocal potente, mal sabe tocar um violão e tampouco emplacar um repertório

Arthur Viggi

domingo, 15 de janeiro de 2012

Imagem Suja - Quem poderia prever?



Uma seleção aleatória de crianças que mudariam as rotações do planeta, do país, cada um com seu estilo, potencial e valores...













O nome das crianças está nos comentários.

João Ninguém @jaoninguem

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sujos Factual - Tentando explicar o inexplicável




Boletim de Ocorrência, Data:29/12/2011

Natureza: Calúnia e Difamação
Logradouro: Na banca mais próxima de você

Vítima: Cultura Popular Brasileira
Acusados: Humberto Maia Jr., E Luís Antônio Giron, Marta Mendonça, Maurício Meireles, André Sollito. Repórteres e editores da Revista Época


"Com melodia fácil e letras que falam ao público jovem, o cantor paranaense bateu recordes na internet e traduziu os valores da cultura popular para todos"



Esse subtítulo é o culpado da discórdia, porque a matéria, pra quem leu, é bem escrita apesar da superficialidade do personagem. A falta de bom senso é óbvia no trecho polêmico "traduziu os valores da cultura popular para todos", e muita gente já escreveu sobre. Mas vamos experimentar um olhar diferente:

Você jornalista de uma das maiores revistas do país recebe um release do Michel Teló com recomendação de capa. Você tem que realizá-la. O que interessava à assessoria do rapaz era tê-lo na capa, o teor da matéria pouco importa.

Eu fico pensando, a tarefa foi delegada a cinco jornalistas, será que faltou o bom senso aos cinco? Não sei, isso me tem cara de uma grande sacaneada. Teló tem direito a capa não tem ?(provavelmente é uma matéria paga, muito bem paga). Então, os jornalistas resolveram escancarar essa pouca vergonha.

A melhor resposta que tenho da situação é essa, o jornalista poderia ter feito uma matéria que ninguém ia ligar, apenas para as fãs histéricas guardarem. Mas não, despertou polêmica e discussão sobre o que é a cultura popular brasileira. Sobre o quanto estamos distantes de nossas raízes.

No mais, o hit de Teló não é sertanejo, não tem identidade nenhuma: nem letra, nem ritmo. Tornou-se um sucesso através de jogadores de futebol, primeiro os tupiniquins, depois o ídolo mundial Cristiano Ronaldo. Por isso, creditar algum mérito ao artista é desrespeito à inteligência. Pra quem ainda insistir nisso, presta atenção nessa letra:


A gente foi criado em playground,
jogando futebol no carpete,
tomando leitinho com pêra às 5:47...

A gente nunca andou na grama,
A gente nunca sujou pneu de lama,
temos no farmville uma plantação de banana...

Fui feita para agroboy, cowboy de posto,
Fivela dourada e creme no rosto.

Railuque & Maloque - Agroboys
(Jingle de Comercial da Nissan)



João Ninguém @jaoninguem

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Culto & Grosso - Não é toda mãe que é Maria








“Ave Maria, cheia de graça,
o Senhor é convosco.
Bendita sois vós entre as mulheres,
e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte.
Amém.”

 Você pode ser bem cabeça aberta. Mas ainda sim, admita: no nosso inconsciente a maior virtude de uma mulher é sua santidade. Quanto mais santa, melhor. Esse desejo por mulheres cheias de graça (aqui não é bossa nova) é justificável pela raiz cristã da nossa sociedade. A religião pode ter perdido sua força no discurso e vida de jovens, mas a moral cristã ainda reina.

 É pecado levantar a voz contra o pai e passagem direta para o inferno duvidar do amor de uma mãe. A família é o sagrado maior, ao qual, não se pode contestar. Profanar a família é coisa que choca até mesmo nossa juventude atéia e agnóstica.

A família é, sim ,uma instituição social importante, mas o invólucro instintivo - que nem mesmo a razão esclarecida se permite atravessar – torna o seu papel altamente restritivo e nocivo aos indivíduos.

O amor entre pais e filhos é, felizmente, quase que inevitável, o que lamento é a automatização desse amor em obrigações. Uma autoridade paterna que necessariamente precise machucar, uma identidade feminina que não possa odiar o seu filho por um segundo, um filho que tenha que ser bom para os dois mesmo que eles não mereçam.

Nem toda mãe é Maria, e nem toda a mãe deveria tentar ser. Mães são humanas e imperfeitas, são cruéis e egoístas tanto quanto qualquer outro ser humano. Qualquer mãe que se sacrifique por seus filhos, tem em si que é o certo a se fazer, mesmo que isso seja contrário a todas suas razões.
 Quando agem mal, na educação cristã, há a culpa. Não fosse a culpa, talvez as mães pudessem ser mais sinceras, mais humanas. Mães, que apenas cumprem o seu papel, fazem da relação com um filho um grande sofrimento para ambos. Assumem para si responsabilidades de Ave Maria, com a diferença que não estão prontas para verem a morte de seus filhos, sacrificando à sua própria vida na intenção que os filhos possam viver em Paz, porém, podem ser literalmente o inferno para eles. 

João Ninguém
@jaoninguem

sábado, 12 de novembro de 2011

Sujos Factual - Quebrando o Tabu



O princípio ativo da maconha não devia se chamar THC, mas sim FHC. Através de seu documentário, Quebrando o Tabu, Fernando Henrique Cardoso tenta sobrepujar a repulsa que acompanha a discussão a respeito das drogas, trazendo à tona a questão que realmente interessa: a política de repressão ao tráfico e ao consumo é eficaz? Longe de fazer apologia ao uso, o filme foi meticulosamente montado, com argumentos consistentes e várias personalidades de respaldo, como Dráuzio Varella, Jimmy Carter, Bill Clinton e Paulo Coelho.


Durante a maior parte do filme tive uma sensação prevalente de orgasmo intelectual. Não é qualquer dia que você vê um sociólogo das antigas versando sobre um tema tão interessante e polêmico. Abarcando desde o cigarro e o álcool até a heroína, a película leva a discussão para fora do Brasil, através de entrevistas, analogias, dados quantitativos, que revelam a droga não como substância do capeta, mas como problema mundial de saúde; um mal inexpugnável que deve ser encarado de frente pelo sistema de saúde. Indico para você, leitor, que gosta de polêmica e bons argumentos. “Quebrando o Tabu” vai virar sua cabeça do avesso. E quem não vir é careta.



Arthur Viggi

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Música Suja - Black Sabbath volta aos palcos e grava CD com inéditas em 2012


Uma das maiores bandas da história do rock mundial acaba de anunciar a sua volta aos palcos: o Black Sabbath fará uma turnê em 2012 e lançará um álbum com músicas inéditas.

A tarde de hoje foi acompanhada com muita tensão. O anúncio era esperado por fãs do mundo inteiro, que esperavam ansiosos pela nova reunião. Depois de 33 anos, a banda se está reunida novamente com a sua formação original que tem Ozzy Ousbourne nos vocais, Tommy, Geezer e Ward .

A última vez que a banda tocou junta foi em 1997. No ano seguinte, o registro das apresentações gerou o disco Reunion, ainda hoje um clássico.

No Twitter, o movimento para chamar a atenção do grupo para o Brasil já começou. A ideia é relacionar toda a informação à hastag #BlackSabbathBrazil.

Confiram o vídeo de anúncio exibido hoje:

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Contos Sujos - Roadster - Parte 3


Se você não está acompanhando este conto, as duas primeiras partes dele estão no post anterior. Se está, manda bala na segunda parte!

Agora foi a vez do motorista pensar naquilo tudo. Um longo período de silêncio se seguiu enquanto o homem acelerava o carro por planícies e descampados. Ele parecia processar aquelas palavras. Parecia ser a primeira vez que havia escutado algo tão certo em relação a vida.

Do lado de fora, as nuvens ficavam mais feias. O sol já não brilhava e o tempo estava cada vez mais escuro e pesado. Os primeiros pingos riscaram o vidro da frente do carro. Eram pequenos. Aquilo parecia ser apenas uma amostra do que ainda estava por vir. Depois que a chuva começou a cair mais forte, o homem que dirigia o carro recomeçou a falar:

-você tem uma boa opinião. Veja, há tanta gente nesse mundo que perde tempo com tanta bobagem que eu não entendo... perdem tempo em computadores, trocando palavrinhas, mantendo um tesão reprimido enquanto a vida esta aí... correndo aí fora pelos campos, o cheiro de chuva, essa porra toda que conecta o mundo, saca?

-sei. Eu sei exatamente do que você está falando.

A viagem seguiu. A chuva apertou muito no caminho, mas logo o sol já estava de volta no finzinho da tarde. Neil saltou em uma cidade pequena e caminhou por mais algumas horas. É, a vida era aquilo mesmo.

Contos Sujos - Roadster - Parte 2


Se você não está acompanhando este conto a primeira parte dele está no post anterior. Se está, manda bala na segunda parte!

Neil encostou na porta do carro e colocou o braço para se apoiar na janela. O motorista era um velho barbudo, com uma aparência angelical. Neil iniciou o diálogo:

-para onde vai, amigo?

O velho parou e o observou por alguns instantes. Estava analisando Neil, provavelmente pensando se não estava fazendo uma grande besteira parando o carro ali. Pareceu aprovar o homem que aguardava a resposta do lado de fora e disse:

-vou descer a estrada até onde puder. Não tenho destino, sou um sem destino... se quiser, entre.
-não sou de negar a ajuda dos outros, principalmente vendo que a coisa aqui vai ficar feia. A chuva que vai cair não é brincadeira. Respeito a estrada. Vamos lá...

Neil destrancou a porta e entrou. Jogou sua mochila surrada no banco de trás do carro. Era um modelo Cadillac, muito bem conservado. O estofado era todo em couro branco e a lateral era em um azul platinado que refletia incrivelmente a cor do sol que ainda brilhava entre as nuvens lá fora. Um cheiro bom, de alguma planta tomava conta do carro. Enquanto o motorista se preparava para dar a partida, Neil tentou começar uma conversa:

-meu nome é Neil, qual é o seu amigo?
-meu nome não importa... – disse com um leve sorriso no rosto – vocês caroneiros se esquecem logo depois que saltam do carro o nome daqueles que lhe oferecem ajuda...

Neil sabia que o homem tinha razão. Uma coisa era um roadster eventual, que nem sempre se aventurava na estrada. Outro era um cara como ele, que vivia rodando por todos os lados, com todo tipo de gente. Não havia como guardar o nome de todos.

-sim, você tem razão. É impossível lembrar do nome todos que me ofereceram carona, comida ou abrigo. Estou na estrada há muito tempo. Mas sou grato, e me lembro de cada experiência e por isso sou grato. Mais do que nomes, lembro do que cada um é.

Continua...

domingo, 6 de novembro de 2011

Contos Sujos - Parte 1 - Roadster


Havia cheiro de chuva no ar. Só quem já pegou a estrada e colocou o dedão para o alto esperando por uma carona perdida no meio do nada sabe o que isso. O ar fica abafado, pesado e você sabe que em algum momento a água vem para limpar a terra em um rotual puro, selvagem e claro inspirador. É engraçado como que nas cidades as pessoas buscavam todas as formas de proteção contra aquela água.

Capas, guada-chuvas, pequenas bolhas que impediam que o líquido da vida tocasse seus corpos. Neil não conseguia compreender isso. Já não era um novato nas estradas. Tinha pego caronas de costa a costa. Sabia exatamente que a estrada era generosa com aqueles que a respeitavam, mas era traiçoaeira com aqueles que se julgavam mais fortes. Em cada caminhada ao longo das grandes rodovias, pensava muito. Isso foi um problema no passado, mas agora não, agora ele sabia que tempo era o que ele mais tinha.

Depois de ter saído de Big City, Neil começou a enxergar a porcaria de vida que levava. Não conseguiu acreditar no tempo que passou alimentando as tetas daqueles idiotas. Ficou preso dentro daquele escritório, trabalhando como um burro por conta de alguns trocados que mal davam para curtir um pouco. Fora que Big City é uma cidade cruel.

Como diz a música, naquele lugar não há amor. Só ha ganância, podridão e insetos que tentam sobreviver ao que existe de pior no ser humano. O sol brilhava forte no alto, mas nem aquilo incomodava Neil. Quando levantou o dedão, um velho Cadillac parou. Era um bom sinal.

Continua...

sábado, 5 de novembro de 2011

Imagem Suja - 7 Bilhões


O mundo chegou a 7 bilhões de habitantes. Ao mesmo tempo em que vivemos um período de crescimento acelerado e avanços, presenciamos também a escassez de alimentos e a divisão cada vez maior entre ricos e pobres.

Não custa nada lembrar que o planeta tem recursos ainda hoje em grande escala, mas que o ritmo de consumo deverá utilizar boa parte do que ainda resta durante a nossa geração. Não adianta ficar indignado com o imperialismo do riscos, se nós vamos ao shopping e compramos a marca que escraviza.

A mudança parte de cada um, e não é tão fácil quanto se imagina. Temos opções: começar a mudar ou deixar que o planeta nos mostre que esta hora chegou. Estas são fotos do The Boston Big Picture, e mostram crianças que nasceram em diversas parte do planeta no dia em que o mundo mais uma vez chega a uma marca impressionante.












LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...