quinta-feira, 23 de junho de 2011

Culto e Grosso - Quantos amigos você tem?

No último mês de março o Facebook ultrapassou a marca de 13 milhões de usuários no Brasil. Seguindo a tendência mundial, o Brasil se conecta ao site de Mark Zucherberg e vai gradativamente abandonando o até então líder Orkut. As redes sociais são inegavelmente um grande sucesso não de hoje, mas adaptadas para a internet de forma muito bem sucedida

Junto com o sucesso das redes sociais, vieram os milhares de especialistas em social media. É incrível pensar que algo tão recente já possui estudiosos tão profundos e gurus que são capazes de desvendar o funcionamento de algo orgânico e mutável. Isso as vezes parece até uma piada. Mas na verdade o assunto aqui nem será exatamente este. Vamos falar sobre o que move a rede, e que dá vida a este sistema. E na humilde opinião deste escriba, não é nenhuma novidade: status.

Para quem assistiu ao filme "A rede social", que conta o nascimento do Facebook percebeu o que é a sede pelo "querer aparecer". O Facebook nasceu em uma disputa para saber quem era a garota mais bonita de uma universidade. A partir de então a rede começou a crescer a para entender o resto assista ao filme. O lance é que sem status, a rede nunca cresceria. E status, no fim das contas é o que move o mundo. Felizmente ou infelizmente.

Diferente do Orkut, onde a informação era a interface do site, no Facebook a imagem é o início de tudo. E perceba o quão importante é ter uma imagem interessante ali no seu profile. Aquilo é como um anúncio do que será encontrado no interior da página. E veja que as informações do seu perfil ficam no interior das páginas. Para encontrar algo, que não sejam as imagens, é preciso procurar um bocado. No fim das contas, é o império da imagem a todo custo. O conteúdo? Esse fica para depois.

Outro ponto é a popularidade. Não importa se os seus amigos ali são próximos ou não. Não importa se você os conhece pessoalmente ou não. Não importa se algum dia você já trocou duas ou três palavras com eles ou não. Veja que há apenas uma única categoria (amigos) onde todos se encontram. Claro, é possível indexar seu profile aos seus familiares, mas em relação aos seus amigos, o que importa é o número. Quem tem mais, claro, é mais pop.

O interessante é que nada disso é novo, e os especialistas de plantão insistem em compreender uma novidade que já está aí desde os filmes americanos High School. E o padrão babaca tipo exportação também parece entrar com força total no país, já que o grande lance é manter uma imagem bonitona e uma rotina instigante em suaves posts diários para a sua audiência. É tudo muito bem conectado e amarrado para que a disputa pelo mercado da popularidade seja cada vez mais interessante.

A grande sacada foi conseguir mostrar o que é status visualmente e sem ser agressivo, de forma que todos, mesmo que de forma inconsciente, busquem tê-lo. Vai dizer que você nunca teve que responder a pergunta:

Quantos amigos você tem?

terça-feira, 21 de junho de 2011

Imagem Suja - Japão: um país em recuperação


Imagens de um país em recuperação. Nossos problemas são pequenos. Os créditos são para o Boston Big Picture.






Contos Sujos - Diálogo com a Morte - Parte 3


Se você não está acompanhando este conto, leia as primeiras partes logo aqui em baixo. Se está, manda bala na última!


Marcelo refletiu por um momento. Tinha agora um semblante bem mais tranqüilo. Passou a enxergar no Barman uma figura de extrema sabedoria e paz interior. Em seguida, com um leve sorriso, ponderou:

Marcelo: Mas, Sr. Morte, eu estou morto, não se lembra?
Barman: Ah, sim! (risadas) Você está morto.

Os dois caíram em gargalhadas, até que chegou o barco que levaria Marcelo até o Julgamento. Era um pequeno bote com dois remos. Curiosamente, ele chegou vazio.

Barman: Vamos lá, Marcelo. Vou te conduzir até a sala do Julgamento. Não tenha medo. Entre no barco.
Marcelo: Você me garante que não preciso ter medo?
Barman: Eu prometo. Repito, aqui não é a Terra. Não existe o medo.

O barco saiu em direção ao infinito do oceano. O Barman remava pacientemente, e os dois continuaram conversando.

Marcelo: Sabe, Sr. Morte, aqui parece ser muito melhor do que lá na Terra. Esse paraíso me passa agora uma paz que eu nunca tive.
Barman: Mas aí está o grande desafio de Deus, garoto. Encontrar a paz num ambiente caótico como tem sido a Terra. Aqui é muito fácil ter paz.

Os dois continuaram conversando, até que o celular do Barman tocou. Era Deus. Conversaram por algum tempo, até que o Barman desligou o celular e disse:

Barman: Bom, rapaz, nós temos aqui um engano. Você não devia estar morto.
Marcelo: O que?! Como assim?
Barman: É isso mesmo. O Senhor me contactou agora e me disse que houve um engano. Você está se recuperando no hospital. Está inconsciente, mas fisicamente está bem.
Marcelo: Impossível. Eu estou morto sim. Quero ficar aqui, não quero voltar para aquele inferno lá embaixo.
Barman: Mas não está na hora de você morrer. Você terá que voltar, Marcelo. Obedeço a ordens superiores.
Marcelo: Não, Sr. Morte, por favor. Não quero viver.
Barman: Sinto muito, garoto. Reencontraremos-nos novamente. Leve os aprendizados que você teve aqui e aproveite a vida. Ah, e não se candidate a nenhum cargo político.

O Barman pegou uma âncora no fundo do barco, enquanto Marcelo se mostrava confuso e cabisbaixo novamente. Em seguida, completou:

Barman: Irei amarrar essa âncora em um de seus pés. Em seguida você vai pular dentro d’água e vai acordar na Terra em pouco tempo.

O Barman foi andando em direção a Marcelo, que retrucou:

Marcelo: Vamos fazer negócio, Sr. Morte.
Barman: Aqui não tem negócio, garoto. Vamos amarrar isso em seus pés.

O Barman tentou entregar a âncora a Marcelo, porém este se assustou e começou a andar para trás. Deu dois passos e tropeçou na borda do barco, caindo dentro d’água.

Cerca de duas horas depois, Marcelo abriu os olhos. Estava no hospital, e sentindo-se muito bem, por sinal. Sua mãe soltou um grito de alegria, e em seguida começou a chorar. Mãe e filho se abraçaram, e começaram a conversar sobre os sentimentos que cada um teve durante a inconsciência de Marcelo. No fim do diálogo, sua mãe revelou:

Mãe: Marcelo, você disse algo, mais ou menos uma hora antes de acordar.
Marcelo: Ah, é? O que foi que eu disse?
Mãe: Acho que você disse: “Somos bons porque somos bons”

Arthur Viggi

Contos Sujos - Diálogo com a Morte - Parte 2


Se você não está acompanhando este conto, a primeira parte está logo aqui em baixo. Se está, manda bala na segunda!

O Barman, que estava agora limpando alguns copos, parou pacientemente e se virou novamente para Marcelo.

Barman: Olha, Marcelo, não existem mentiras desse lado. Você está morto mesmo. Sofreu um acidente de trânsito quando ia para a faculdade. Sinto muito, o que posso fazer agora é lhe conduzir ao Julgamento.

Marcelo: Julgamento? Que Julgamento?

Nesse momento Marcelo se beliscou várias vezes e até chutou uma cadeira para certificar-se de que não estava sonhando. Então, começou a chorar.

Marcelo: Como assim eu tô morto? Não é possível, eu sou muito jovem pra isso. Nem aproveitei a vida direito. Estudei pra cacete. Não faço mal a ninguém. Não posso morrer agora.
Barman: Mas você já morreu. E além disso, você vai se acostumar com este lado. Aqui não existem mentiras, nem lugares, nem dinheiro, nem desigualdade social, nem filósofos e nem advogados.
Marcelo: E quem é você afinal?
Barman: Não faça mais perguntas, por favor. As pessoas nunca gostam de mim depois que sabem quem eu sou.
Marcelo: Eu insisto. Você é minha única companhia nesse lugar e quero saber quem é você.
Barman: Tudo bem. Vou dar uma dica: meu nome começa com “M”.
Marcelo: Maluf?
Barman: Não, seu idiota! Eu sou a Morte. Sou o responsável por pegar as pessoas que estão vivas e levar para o Julgamento.
Marcelo: O que? Então foi você quem me trouxe até aqui?
Barman: Sim.
Marcelo: Seu cafajeste. Como pôde?
Barman: Eu te disse que ninguém gosta de mim. Por que insistiu em saber meu nome?

Marcelo sentou-se em uma das cadeiras e finalmente começou a beber o coquetel.
Estava agora fechado e cabisbaixo. O homem prosseguiu com a conversa:

Barman: Olha, as pessoas morrem, e a morte não tem idade. Você deve saber muito bem disso. Contente-se com a vida que teve e aceite o papel que está assumindo agora. Quanto mais facilitar as coisas, mais rápido sairá daqui. Deixe-me fazer meu trabalho.

Marcelo, que estava olhando pro chão e bebendo o coquetel, voltou a falar:

Marcelo: Mas você falou em Julgamento! E se eu for pro inferno?
Barman: Aqui não existe nem céu nem inferno. Nosso julgamento não é o julgamento que vocês usam na Terra. Aqui não existe Constituição, todas as pessoas já pagaram pelos seus erros quando estavam vivas. O Julgamento é um evento simbólico que representa o fim da vida e a plenitude da paz. Sem cadeias, sem advogados. No seu planeta as pessoas mais ricas utilizam seus recursos para acumular ainda mais recursos, sem se preocupar com a exploração da mão-de-obra, com as florestas e com o que vocês chamam de Lei. No final elas acabam se afogando na própria ganância. A sentença da Terra é o ódio e a rejeição. Aqui a sentença é a paz. As pessoas caminham juntas, sem distinção de classes. É uma versão transcendental do que vocês chamam de comunismo.

Marcelo: Entendi. Mas então quer dizer que as religiões estão erradas?

Barman: As religiões são uma má interpretação da idéia de Deus. Toda instituição humana tem corrupção e abusos, e a Igreja não é diferente. Ela se mistura com a política e costuma ter os mesmos interesses dos mais poderosos. Reproduz a lei dos homens na lei de Deus. Fala como se aqui existissem cadeias e cadeiras elétricas. Mas isso não se aplica, é claro, a todas as pessoas que participam dela. No entanto, as pessoas devem ter senso crítico. Devem ajudar aqueles que se mostram merecedores de ajuda. A solidariedade sem mediações é a melhor forma de entrar em contato com Deus, e muitos não percebem isso. Preferem procurar instituições burocráticas como a Igreja para alimentar seus espíritos. O conceito de Deus vai muito além do conceito de instituição. O homem, por si só, já carrega bondade, moral e ética dentro de si. Não é preciso ter uma religião para saber os mandamentos de Deus. Os mandamentos estão na genética humana. Quando somos amigos, compreensivos e benevolentes uns com os outros, a vida naturalmente nos devolve as coisas boas que semeamos. E quando fazemos o contrário, ela nos devolve o contrário. Aqui as pessoas equilibram seus instintos com a razão e assim encontram o verdadeiro caminho da felicidade. Sem igrejas, sem dinheiro, sem posses.

Marcelo: Hummm... Muito interessante. Então quer dizer que é impossível ser feliz na Terra? Pois lá coisas como a posse sempre irão existir...
Barman: Não é impossível. Na verdade nem é tão complicado ser feliz. Porém no seu planeta existe o capitalismo, e não se pode simplesmente ignorá-lo. O homem se torna corrupto quando se trata de poder e de dinheiro, e o sistema econômico de vocês nunca vai mudar. O que eu penso é que você pode fazer mudanças em sua própria realidade, sem ter que apelar para o sistema, que é muito burocrático. Então, te aconselho a ajudar o próximo seguindo os mandamentos que estão impressos nos seus genes. Não se meta com a política, mude o que está ao seu alcance e aí você descobrirá a felicidade.

Continua...

Contos Sujos - Diálogo com a Morte - Parte 1


Marcelo Freire tinha 28 anos de idade. Era jovem demais para morrer, mas, infelizmente, já estava quase morto. Estava indo para a faculdade numa noite de segunda-feira quando atravessou uma rua de mão-dupla, com o sinal fechado, e por descuido olhou somente para um dos lados. Era estudante de Direito e tinha se formado em Filosofia, mas trabalhava como carteiro.

Estudava agora para ser advogado e ganhar o dinheiro que não ganhou como filósofo, deixando o emprego de carteiro de lado. Foi atropelado por uma ambulância que estava sem nenhuma emergência no momento, e, portanto não passou com a sirene ligada. É até irônico alguém morrer atropelado por uma ambulância. Marcelo sempre teve medo do trânsito e na maioria das vezes esperava o sinal verde para atravessar a rua.

Mas desta vez estava atrasado para a primeira aula e nem olhou para o semáforo. Ele pensava muito sobre a quantidade de vezes que quase somos atropelados no trânsito, e definitivamente não considerava essa uma forma nobre de se morrer. Concordo com a visão do quase-morto, acredito que o Ministério da Saúde fará no futuro uma campanha contra os atropelamentos no trânsito.

As multas passarão a vir com uma advertência atrás, com mensagens do tipo: “Atravessar causa impotência” e “Dirigir pode causar dependência física e psíquica”.

Foi então que Marcelo se viu numa praia paradisíaca. Estava muito próximo do mar. As ondas quebravam e a água chegava sutilmente até seus pés. O céu estava muito limpo e o sol quase se pondo. Não via ninguém e nada além de água, areia e uma cabana no fundo da paisagem. Resolveu ir até lá pedir informações.

Chegando lá, encontrou um homem alto, vestido de terno preto e com um chapéu inclinado. A cabana tinha garrafas de todos os tipos de bebidas que se pode imaginar, e o homem estava misteriosamente preparando um coquetel em um lugar deserto como aquele. Marcelo interrompeu-o:

Marcelo: Com licença. Onde a gente está?
Barman: Nós não estamos em lugar nenhum. Não existem lugares aqui desse lado.
Marcelo: Como assim? Eu tenho que ir pra faculdade. Me diz como eu chego no Centro da cidade.
Barman: Aqui desse lado não existem cidades. Estamos esperando o barco, tenha paciência.

O Barman serve o coquetel a Marcelo.

Marcelo: Você é um cara muito estranho. Vamo falar com clareza aqui. Eu quero saber agora como eu chego no Centro da cidade. Tô atrasado, pó. Pára de me enrolar e fala logo, por favor.
Barman: Esse lugar não tem saída. Sente-se aí e fique a vontade. A única saída é através do barco.
Marcelo: Como assim não tem saída? Todo lugar tem uma entrada e uma saída, a não ser que a gente esteja numa ilha.
Barman: Nós estamos numa ilha. Se chama ilha do Alem.
Marcelo: Ah, tá. E por acaso eu estou morto?
Barman: Bom... sim.
Marcelo: Eu só posso tá sonhando.

Continua...

terça-feira, 14 de junho de 2011

Música Suja - Johnny Cash - Personal Jesus


Conforme prometido, para dar aquela sujada musical, mais uma versão de Personal Jesus, na voz de um dos mestres: Johnny Cash. Mesmo com um arranjo baseado apenas em voz e violão o peso da música não se perde em nenhum momento. Pegue um livro sujeira, comece a ler e solte o som.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Trilogia “Mazela Social” – Parte 1 – Ônibus 174


Quando soube que haveria uma continuação de “Tropa de Elite”, imbuí-me de um sentimento de reprovação. Achei que a sequência seria uma obra caça-níqueis e, principalmente por ter subestimado a qualidade do primeiro filme, virei as costas para o segundo. Por um tempo, pelo menos. Acontece que um confiável amigo, que compõe esta patota imunda, disse-me, logo depois de assistir ao filme: “É dez vezes melhor que o primeiro.” E é mesmo. Assisti ao filme e, de tão impressionado, saí do cinema com vontade de dar porrada em político.

Aos poucos, fui me interessando cada vez mais pela polêmica levantada pelo diretor José Padilha. Li/vi muitas coisas que disse em entrevistas, inclusive a respeito da relação “Ônibus 174- Tropa de Elite – Tropa de Elite II”. Esta pauta e as próximas três da coluna Cultura Suja tratarão a respeito das obras que compõem a trilogia.


Começamos com “Ônibus 174”, o documentário que narra o fatídico seqüestro de um ônibus na Zona Sul do Rio, em 2000. A riqueza de imagens e depoimentos prende o expectador do início ao fim, considerando a interessantíssima história do protagonista/vilão Sandro do “Nascimento”. “Nascimento?” “Nascimento” de Capitão Roberto Nascimento. Isso mesmo, o diretor deu sobrenomes iguais, pois considera-os “duas faces da mesma moeda”.

De um lado, Sandro, ex-menino de rua, vítima do massacre da Candelária. Uma figura cuja vida recheada de tragédias simboliza de forma poética a classe dos fracos e oprimidos. De outro lado, o temido Capitão Nascimento, líder do BOPE, mecanismo criado pelo sistema para reprimir a bandidagem que domina as favelas cariocas.


No paroxismo do filme, toca-se numa ferida incômoda: a “invisibilidade” dos marginais brasileiros. O que pode se esperar de pessoas que crescem sem educação, muitas vezes sem família, e sem reconhecimento? Isto me remeteu a uma lembrança, até então inexpressiva. Estou caminhando por uma rua erma de Juiz de Fora, no sentido oposto do que, a julgar pelo tipo físico, indumentária e postura, era para mim um bandido.

A andrenalina subiu, as pernas bambearam, mas eu continuei no mesmo sentido. Pensei em desviar, atravessar a rua, porém, pensando de novo, prossegui. O jovem me abordou: “Aí, mermão, tem um trocado pra eu tomar um café?” “Pô, cara, num tenho, to só com a passagem”, menti, descaradamente. “Tá beleza, broder, tu atendeu, prestou atenção, valeu.” Se eu tivesse atravessado a rua, o que teria ele feito?

Arthur Viggi

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