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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Contos Sujos - O homem que tomava decisões - Parte 1


O sol brilhava forte na estrada. Cada novo passo para Sam era mais doloroso que o último. Suas botas estavam desgastadas com a longa caminhada. Seu corpo já apresentava marcas da jornada desesperada, e até por ele incompreendida. Despendia suas últimas forças para chegar a algum lugar que não conseguira nunca encontrar.

O suor escorria pelo rosto cansado, misturando-se a eventuais lágrimas que insistiam em descer de seus olhos. Sua única distração naqueles últimos meses era pensar em tudo que havia perdido e em cada revés que a vida lhe apresentara.

Sam estava cansado. Estava cansado de tudo. Durante toda sua adolescência sofreu, vendo-se colocado de lado em cada oportunidade. Cresceu em uma cidade do interior, recheada de preconceitos. A forma como as pessoas o olhavam. Como o tratavam.

Enquanto sua cabeça avançava, aquela gente o oprimia velada e sutilmente. Havia decidido pegar a estrada pela primeira vez, quando uma bolha estourou dentro de sua casa. As brigas de seus pais apareceram como um vendaval. Ele não suportou. Ainda pouco antes de um amanhacer, juntou o pouco que tinha, algumas mudas de roupas e saiu sem deixar rastro.

Não foi fácil até a primeira carona aparecer. Sulley, um caminhoneiro velho de estrada, parou o velho Ford na beirada da estrada. Enquanto o motor roncava alto, Sam alimentava seu sonho de sair e nunca mais voltar. Mas aquilo estava só começando.
Sulley alertou Sam sobre a cidade grande ainda no caminho:

-para onde está indo? – disse o caminhoneiro

-para a capital. Me leve pra lá

-o que vai fazer lá? Visitar alguma garota?

-não, vou fazer minha vida

Sulley viu que Sam sabia pouco sobre como seria a vida dele no meio do desconhecido.

-não tem onde ficar não é? Está fugindo...

-sei como me virar. Arrumo um emprego – disse Sam

-as coisas não são assim. Lá ninguém conhece você. Não sabem seu nome. Quem você é.

-disse que vou me virar. Não se preocupe.

continua...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Contos Sujos - Decisão - Parte 2


O início da segunda metade do ano em Big City faz a cidade ficar ainda mais cinza. Um vento soprava forte. O ar estava seco e pedia algo quente para beber. Enquanto descia a principal, Tony tomou um cigarro (filtro preto, do tipo mentolado) de dentro de seu capote surrado, acendeu e continuou sua caminhada.

Aquela hora da tarde a rua estava vazia. Caminhou pela avenida 41 e foi em direção ao Muddy`s, uma cafeteria no centro de BC. Pediu um expresso. Tony havia desenvolvido outra habilidade: tomar café sem açúcar.

Enquanto desfrutava do amargor do líquido, dava seus tragos no cigarro e observava o movimento na rua. Um estalo veio em sua cabeça:

-estou no lugar errado. Eu não deveria estar aqui...

Olhou novamente para rua enquanto pensava. Não sentia nada por aquele lugar. Pensou em tudo que havia feito contra sua vontade. Pensou em todas as coisas que tinha que fazer. Pensou em todas que tinha deixado de fazer. Falou quase que sussurrando:

-eu não preciso estar aqui...

Sem que tivesse notado, uma mulher acabara de ocupar o lugar em frente a ele. Tragava um cigarro. A garçonete estava servindo um conhaque. A mulher disse:

-por que está aqui então?
-não sei... – disse Tony sendo pego de surpresa.
-está aqui porque não consegue fugir desta realidade. Quer um conselho? Solte todos os laços...
-você não sabe o que está falando – retrucou Tony
-há algo que você não consegue largar. Se culpar por isso não vai resolver nada. Quer um conselho? Não pense, faça o que acha deve ser feito.

Tony acendeu outro cigarro enquanto tomava seu café. Estava difícil pensar naquela hora. Parecia que um golpe havia lhe acertado a cabeça. Forçou um pouco para tentar raciocinar, mas foi rapidamente vencido.

Pagou a conta, e despediu-se da mulher. Desceu a calçada da principal de Big City e sumiu sem deixar pistas. Alguém o procurou. Por várias vezes o telefone de seu apartamento chegou a tocar. Mas ele não queria ser encontrado. Tony tinha tomado uma decisão sem volta.

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